Archive for janeiro \31\UTC 2008

Repensando Sem (Tanta) Pressa

31 de janeiro de 2008

Embora demorada sua publicação, o post sobre Annie Leibovitz foi escrito às pressas, entre uma crise de hérnia de disco e um feriado prolongado. Não era para ser apenas graça ou curiosidade. O principal dos vídeos no YouTube mostra muito do que envolve o magistral momento de um retrato desde quando ele se inicia, que neste trabalho de Annie Leibovitz poderia ser sua visita às locações do Palácio de Buckingham, 10 dias antes da foto.
Já neste dia ela se encontra com a assistente de Elizabeth II, sua emissária oficial de pedidos, inclusive das solicitações de roupas.

Como a primeira impressão é a que vale, em sua chegada ao set a Rainha deveria ter a recepção que demonstrasse a importância do momento. Um séquito de 11 assistentes, enfileirados, especialmente escolhidos e muito bem vestidos são apresentados e a mensagem é que algo de especial vai acontecer; “e tudo será feito com muito carinho”, remete o ato da filha de Leibovitz lhe oferecer um bouquet de flores. Elizabeth, acostumada a outras fileiras e sem perceber na pequenina americana a leve flexão que crianças inglesas aprendem desde pequenas a fazer diante da monarquia, não parece se impressionar e diz que tem pouco tempo. Foram 30 minutos de trabalho intenso, com direito ao pedido de repetição de um set – Leibovitz alegou ter cometido um engano –, atendido por Sua Alteza.

Leibovitz pesquisou em vários livros sobre vestimentas e jóias da Rainha e quis incluir tudo. Na hora da foto ela preferiu a monarca “less dressy”.
No post anterior, me referi atravessadamente ao pedido para que a Rainha tirasse a coroa, que era uma tiara (tanto faz; só faz diferença para inglês). Era, na verdade, a dança de fotógrafo e fotografado, a relação que se iniciava e que iria repercutir por toda a sessão e no resultado final (considerado por Leibovitz um tanto frio, documental). É algo como o termômetro, o limite, ou seja lá como se quiser chamar. Isso está em quase todas nossas fotos de pessoas, só que não precisamos dar tanta importância algumas vezes.

Sempre me vem à mente a foto de Winston Churchill feita por Yousuf Karsh, quando o estadista preparou a pose que queria fazer, com seu charuto na boca. Karsh deixou a camera no tripé, foi em sua direção e arrancou o charuto de Churchill.

A foto deve ser a mais conhecida de fotógrafo, e também do fotografado.

churchill.jpg Winton Churchill, por Yousuf Karsh

Cada foto, uma vida, uma história.

Um dos meus preferidos

31 de janeiro de 2008

Pose e diversão.

Tesouro em Caixas de Papelão

27 de janeiro de 2008

Sabe a velha história de guardar negativos em caixas de papelão? Pois três delas estão sendo consideradas o mais valioso tesouro para a história da Fotografia. Elas guardam os negativos de Robert Capa com sua cobertura da guerra civil espanhola, dados como perdidos desde a invasão nazista da França, de onde fugiu em 1939.
O achado, que envolve um general mexicano e seu sobrinho cineasta, um professor da Queens College e curadores do International Center of Photography (ICP), tem uma história incrível, com algum suspense e foi contada com detalhes em matéria de Randy Kennedy , no New York Times.

Junto com os negativos de Capa, havia também negativos de Gerda Taro e David Seymour, totalizando cerca de 3.500 originais.

capa1.jpg reprodução NYT

Desnecessário relevar a importância de Capa para o fotojornalismo. Depois dele e de sua máxima (“se suas fotos não são tão boas é porque você não chegou perto o suficiente” – “If your pictures aren’t good enough, you’re not close enough”) a cobertura de guerra mudou de rumo e de liguagem. Suas fotos da invasão da Normandia por exemplo, serviram de storyboard para filmes de guerra.

As caixas – que estão sendo chamadas de “the Mexican suitcase” – eram dadas como perdidas por Capa e provavelmente pelo próprio responsável por “salvá-las”, Imre Weisz, amigo, também húngaro e fotógrafo, que as teria levado de Paris a Marselha. De alguma forma, as caixas chegaram às mãos do diplomata mexicano General Aguilar Gonzalez, depois que Weisz foi preso. De volta ao México, nem Gonzalez nem Weisz (que também morou no México, depois de libertado) tocaram mais no assunto. Todo mundo foi morrendo e num dia de 1995 um professor do Queens College, onde ocorria uma mostra de fotos de guerra, recebeu o telefonema do cineasta que afirmava ter negativos de outras fotos de Capa. Iniciou-se uma longa negociação, que incluiu encontros onde o cineasta, que não quer ser identificado, simplesmente não apareceu.

Depois de mais de 70 anos em caixas de papelão, os negativos da “Mala Mexicana” estão desde dezembro sob a guarda do ICP, em Nova Iorque. Para todos os envolvidos há muito o que vasculhar, inclusive se a foto mais famosa de Robert Capa, The Soldier Falling – que mostra um soldado legalista no momento em que é atingido por um tiro – foi montada ou não. Aliás, na matéria do NYT há inclusive a suposição da foto não ser de Capa, mas de sua companheira, Gerda Taro.
Mas, aí, a história se tornará mais incrível ainda.

capa2.jpg The Soldier Falling, de Robert Capa

Leibovitz Pede a Tiara, Mas Leva Coroada

25 de janeiro de 2008

annie.jpg

O Fotosite indicou o link para a sessão de fotos que Annie Leibovitz fez da Rainha Elizabeth II. O material produzido foi distribuído antes e durante a visita de seis dias que a monarca fez aos EUA em maio do ano passado. O vídeo que está no youtube, feito pela BBC, mostra parte desta produção que envolveu a responsabilidade de se fazer um retrato oficial da Rainha do Reino Unido. É a parte técnica. Com curiosidade dá até para ver o equipamento de Leibovitz e um pouquinho da luz que ela faz.

Mas após três semanas de preparação, incluindo a escolha de cenários no Palácio de Buckingham com 10 dias de antecedência, solicitação do que a Rainha vestiria e o amparo de onze assistentes, vem o imponderável, onde todos os fotógrafos se identificam, que é o encontro de duas pessoas. Elizabeth II chega atrasada dizendo que tem pouco tempo e, no momento da foto, Leibovitz pede para que a Rainha tire a coroa, para que a veja “menos vestida”.

Para o mundo plebeu é até um pedido singelo, visto que a fotógrafa já retratou muita gente pelada. Mas para o mundo real, o imperdoável foi Leibovitz ter se referido como “coroa” à uma “tiara”, que era o que na verdade a Rainha usava. A continuação está em outro vídeo do youtube.

Nele está a verve da imprensa inglesa para o escândalo, quando até a estatal BBC teve que se desculpar por ter editado uma reportagem com Elizabeth II parecendo estar de saco cheio da sessão de fotos. Isso gerou diversas outras reportagens sobre o assunto. Tem até especialistas falando o quão imperdoável é se pedir que um monarca retire sua coroa, muito mais se confundí-la com uma tiara.

Pura diversão para quem nunca viveu um momento solitário e vazio em que fazer um retrato é a coisa mais importante do mundo.

thequeen.jpg

Elizabeth II, por Annie Leibovitz

A Prática de Cada Um, ou Dois

22 de janeiro de 2008

creditos.jpg

Aconteceu no final do ano passado; depois de alguma repercussão o Ombudsman da Folha publicou um artigo dia 13 de janeiro. Eu só estou falando agora da cobertura do incêndio do HC, que revelou uma prática anti-ética e lamentável depois que as mesmas fotos foram publicadas com créditos diferentes em jornais de São Paulo. Mas tenho que registrar.

Ainda há dúvidas se houve apropriação indébita, mas a crítica ao troca-troca não deve ser atribuída apenas a um “profissional”. Tem aquele que concedeu a oportunidade.

Isso foi comum no passado, travestida de ingenuidade e colegismo. Em um show do Rock in Rio uma fotógrafa teve problemas no equipamento e não fez nenhuma foto. Um colega cedeu alguns negativos (isso tem muitos anos). Meses depois a foto publicada com o crédito da fotógrafa foi inscrita em um concurso, exposta e ganhou um prêmio. Não sei se houve algum repasse ao real autor, que hoje em dia se ocupa de barcos e passeios turísticos.

Essa é apenas uma entre muitas histórias, mas desde que nossa profissão se tornou espaço aberto a franco-atiradores, a vigilância teve que ser mais acirrada. Bom trabalho da ARFOC-SP.

O melhor link é ler o que saiu publicado no Granulado, mais antenado e rápido no gatilho.

Útil ou Inútil, é Uma Questão de Uso

8 de janeiro de 2008

Há uns 10 anos um amigo me apresentou à então recente arte oriental do Chindogo. A definição criada por Kenji Kawakami quer dizer literalmente “ferramenta esquisita”, mas com o lançamento do livro 101 UnUseless Japonese Inventions – juntamente com o americano Dan Papia – Chindogo tomou o mundo de outra forma. Na Europa é arte; nos EUA comerciantes querem vendê-los. Para seus seguidores tornou-se algo próximo de um estado de espírito.
A anarquia destes inventos já começa no título do livro – que talvez enfatize que os objetos criados por Kawakami são inúteis, mas únicos; novos e sem uso – e se extende aos 10 Princípios do Chindogo, entre eles o que define: “Chindogo são inocentes. São feitos para serem usados, muito embora não o possam ser”.

esim080108-a102b.jpg

Toalhas de Calças
Uma vida melhor para secadores de mãos compulsivos.
If you can’t change the man, change the pants.

esim080108-a109b.jpg

Chapéu Febre e Resfriado
Porta lenço para o dia todo.

esim080108-a114b.jpg

Faixa de Pedestres Portátil
A melhor amiga dos pedestres.
Contra a tirania dos automóveis. Basta que o pedestre ache o lugar que melhor lhe serve para atravessar a rua e estender a Faixa de Pedestres Portatil.

esim080108-a105b.jpg

Sandálias de Lustrar Para Gatos
Uma ajuda felina para trabalhos domésticos tediosos.
Agora aquele trabalho chato de limpar a casa se tornou um momento de diversão. Não para você, mas para seu gato.
  • Kawakami, entre as definições de comediante e artista espalhadas pela internet, leva a criação de seus “utensílios” muito seriamente. Seu protesto é contra o jeito japonês, de querer “deixar tudo o mais fácil possível de ser feito”, por isso, um verdadeiro Chindogo resolve um problema, mas causa muitos outros.

    esim080108-a112b.jpg

    Abridor de Olhos Bem Acordados
    Mantêm olhos cansados abertos.

    esim080108-a116b.jpg

    Braço de Treinamento Para Apaixonado
    Para desenvolver uma segura demonstração pública de afeto.
    Um braço falso para você se adaptar àquela demonstração de afeto que ainda não lhe é possível fazer em público, sem a sensação de mãos suadas.
  • É engraçado, criativo, sério, reflexivo, irônico, debochado, inteligente, … o que mais?

    Nada melhor para começar o ano falando de trabalho.