O Piloto Renegado e seus Projetos Audaciosos

Quando trabalhei no Estadão, Hélio Campos Mello era diretor de Fotografia da Agência Estado, uma função nova no Brasil, sem a qual a Agência Estado não teria a força e o alcance que conquistou. Isso pode não dizer nada, mas para quem viveu bons momentos fez muita diferença.

Ele deu uma entrevista ao Fotosite. Eu tirei algumas partes para a gente.

Fotosite: Hélio você passou por uma grande parte da história do fotojornalismo. Qual a sua avaliação considerando que você viveu fases completamente diferentes?

Minha avaliação é meio mal humorada. Como eu gosto de corrida, vou fazer um paralelo. Aliás, não gosto mais de corridas. Corrida era muito legal porque era um desafio individual, o cara o tempo todo tinha que se concentrar para melhorar, porque os equipamentos eram precários. Hoje, os equipamentos são de uma auto-suficiência irritante, tem pouco da arte de pilotar. A fotografia também é um pouco disso, com relação a transição do analógico e digital, um pouco obviamente, não quero amargo demais, nem cretino. Mas de qualquer maneira hoje todo mundo fotografa, os equipamentos estão mais amigáveis. O equipamento está em função de inteligência, de olhar, então acho que o indivíduo se massificou, e acho que o indivíduo tem se especializar mais, ler, ver, pesquisar e pensar cada vez mais. (….) Hoje fazemos muitas fotos, isso é bom, mas perde um pouco da solenidade. Outro dia o Marcio Scavone me chamou para fazer um retrato no estúdio dele e tem solenidade, que vai te deixando mais propício para ser fotografado.

Fotosite: Considerando o que você já viu em exposições e em leituras de portfólio pelo Brasil, o que você já está cansado de ver?

É difícil falar sobre isso, porque com toda a experiência que eu tenho, para mim é muito mais fácil montar um portfólio, porque eu sei como funciona esse lado do balcão de olhar portfólio. Você olhar o potencial de uma pessoa por uma amostra de trabalho, é subjetivo. Vejo de uma maneira um pouco mais flexível. (…) A fotografia é um retrato do seu pensamento, ela tem que mostrar um pouco do pensamento e da personalidade da pessoa. A técnica não é fundamental, se um bom pensamento está retratado de maneira eficiente.

Fotosite: Nós publicamos uma notícia na FS Online que está causando muita polêmica, sobre uma fotógrafa que fez imagens do filho da Luciana Gimenez com o Mick Jagger na escola – ele estava com cinco anos na época – e publicou na revista Caras. A Luciana processou e a fotógrafa teve que indeniza-la em R$ 10,5 mil. Você concorda que os fotógrafos estão ultrapassando os limites para conseguir as fotos?

Eu concordo. Para quê? O que vai acrescentar? Eu lembro de uma pauta que foi feita a partir de uma informação que os repórteres trouxeram, de que o filho do Pitta (Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo) fumava maconha. So what? Porquê tem quer dar isso? Ele foi preso? Uma das coisas que mais gostei na Isto É foi uma matéria que pedi pra fazer sobre o João Carlos Martins, que era um pianista reconhecido como o maior interprete de Bach no mundo. Aí ele fez uma bobagem durante uma campanha do Maluf, notório canalha. Eu descobri que ele tinha uma história terrível, que além dessa bobagem com o Maluf, ele estava jogando futebol no Central Park, caiu em cima de uma pedra e danificou um tendão. Daí a mão direita parou de tocar, ficou só com a mão esquerda. Ele foi fazer um concerto não sei onde, agrediram o cara e a mão esquerda parou de funcionar. Aí foram fazer a matéria, queriam focar que ele era malufista. Eu falei “Tudo bem, ele é malufista, mas além de tudo ele é isso, isso e isso”. Então a imprensa tem essa história de linchar a priori, crucificar, ou seja, põe rótulo, um chapéu de palhaço, pendura um negócio no peito e põe o cara na rua pra ser linchado. Tive prazer de tentar modestamente, com uma revista como a Isto É, recolocar o cara em uma situação melhor. A gente tem esse negócio, porque a gente é imprensa, pode tudo. A gente pode invadir a casa dos outros e fotografar uma criança, pode meter a máquina na janela e ficar olhando. Não é uma coisa que eu gosto de fazer. Já me senti paparazzi uma vez e não gostei, tomei guarda-chuvada de porteiro de boate, mas é pessoal. Eu só acho que os valores deveriam ser um pouco mais equilibrados. Aquela coisa de “tudo pode pra se conseguir uma foto” – não é bem isso. A fotografia não é uma ideologia, é um trabalho, assim como jornalismo é um trabalho. O Cláudio Abramo que tem a grande frase: “É um trabalho de carpinteiro, tem que fazer as coisas direito, nada além disso”.

Fotosite: Você é um dos poucos fotógrafos que chegou a cargos dentro de uma redação que são tipicamente de jornalistas. Como isso aconteceu?

Foi indo naturalmente, mas com muita dor. Porque eu trabalhava com um cara muito chato, que era o Mino Carta, um chato de galocha.

Eu era tudo lá, editor de fotografia, fotógrafo, laboratorista. E o editar fotografia era sentar e paginar as matérias. Aí eu tinha as fotos, mas não sabia de que matéria que era, não tinha lido os textos. Tomava um esporro atrás do outro e fui ficando massacrado, até que tomei uma decisão estratégica, tática, inteligente, no meio daquela guerra, que foi conseguir uma cópia das matérias que chegavam via telex.
(…) Então eu lia as matérias e na hora de paginar eu sabia do que se tratava, dava para saber o que você estava fazendo. A partir daí eu comecei a ler a revista toda, lia tudo. Comecei a traduzir o The Economist e fechava. Outra coisa que me honra muito é que eu fechava também a coluna do Cláudio Abramo. E aí foi indo. Foi um pouco essa coisa de você como fotógrafo não ficar circunscrito pela estrutura do jornalismo, que te deixa ali a reboque. E pelo fato de você não conhecer só a sua engrenagem, você começa a entender o motor, e a interferir no motor.

Fotosite: Você acredita no Brasil?

Eu acredito, sim muito, mas tem que lutar, tem que defender as coisas. E são pequenas coisas, ou seja, desde as bobagens de você ser mais educado no trânsito, ser mais solidário com a pessoa que está do seu lado.

Fotosite: Fotografar ou escrever?

As duas coisas. Se bem que eu gosto um pouco mais de fotografar. Escrever é como música, tem a coisa do ritmo, fazer e refazer até chegar a algo que você acha legal.

Fotografar é algo mais social. Você tem que conhecer pessoas, lugares, se colocar de maneira eficiente, para não estragar eventos e cenas. Aí também tem aquele aspecto lúdico, de enquadrar aquele momento, esperar as coisas acontecerem, se antecipar, olhar por aquele visor…

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