WPP – Discurso de Fotógrafo Premiado

Tim Hetherington é formado em literatura por Oxford, com pós-graduação em Fotojornalismo em Cardiff. Foi duplamente premiado no World Press Photo deste ano pelo seu trabalho para a Vanity Fair no Afeganistão. O principal foi ter esta sua imagem abaixo eleita como foto do ano.

Aqui vai uma curiosidade pessoal, que é o discurso de um premiado. Aí está ele. Desculpe a tradução, mas se não estiver satisfeito, pode ler em inglês na Dispatches.

Você, aliás, vai se surpreender com essa revista, que em seu primeiro número publica um ensaio fotográfico de 80 páginas (oitenta!), de Antonin Kratochvil, sobre o tema central da edição, que é a América.

”Muita gente pergunta o que essa imagem significa para mim. É uma questão que eu tento evitar porque ela toca bastante em algumas questões pessoais. Mas achei que poderia tentar respondê-la esta noite.

Para muitos essa imagem representa a mais ampla idéia política de guerra. Já foi dito que o homem fotografado mostra a exaustão de uma nação. Alguns a vêem como campanha política em favor da guerra, outros como sua denúncia. Mas não necessariamente ela é uma coisa ou outra.

Para mim, esta imagem não é sobre uma nação ou uma idéia. É sobre um jovem derrubado ao lado de um morro, no Afeganistão. Seu mundo se transformou em quatro paredes sujas, cavadas por suas próprias mãos. Um quarto do seu pelotão foi morto ou ferido e ele sabe que talvez possa não ver sua mulher de novo.

Esta foto também é sobre como eu me sentia: vivi com estes soldados; fiz patrulha com eles; comi sua comida, e dormi ao relento na mesma cama de campanha. Como eles, me senti exausto durante a batalha e ri quando ela havia terminado. Também fiquei apavorado pela perspectiva de ter o acampamento invadido por insurgentes.

Ter feito esta foto mudou muitas coisas para mim. Parece que ao vencer este prêmio, a imagem foi tomada de mim. Nada me preparou para que uma imagem minha fosse examinada tão publicamente. Estou honrado que a fotografia seja o buraco da fechadura por onde podemos ver o mundo e nossa indústria na atualidade, e aceito que isso atraia criticas em igual medida. Às vezes até desejo que pudesse ter feito um imagem melhor. Gostaria, por exemplo, que ela fosse representativa dos anos que eu passei no oeste da África. Mas não é, e não posso mudar isso. Assim como não posso reter as difíceis memórias e emoções que tenho quando olho para isso.

Voltando, eu tomei a imagem deste soldado fotografado. Foi um momento roubado; uma conseqüência da minha presença. Eu não tinha a menor idéia do que o soldado pensava ou sentia. Mais tarde me senti mal por ter roubado sua imagem e tê-la tornado tão pública. Então, quando estive lá semana passada, perguntei a ele, Brandon Olson, o que ele achou da foto. Ele disse que estava orgulhoso dela, sua família estava orgulhosa dela, que sua mulher estava também orgulhosa. Mas que ele tinha ouvido que a foto havia sido usada em cartazes num protesto contra a guerra, em Nashville, o que não havia lhe agradado.

Quando ele olha para esta foto, ele também vê algo intensamente pessoal. Como eu, ele perdeu o controle sobre esta imagem. E assim como eu e ele estamos agora intimamente ligados por esta imagem, nós esperamos que também vocês, pelo ato de olhar, fiquem também interligados. Porque para mim, o poder desta imagem, não está no que ela representa, mas em sua capacidade de nos conectar, como pessoas.“

Tim Hetherington

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