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Vou Contar Só Para Você

17 de julho de 2009

Querido diário,

Hoje estou em mais uma das minhas crises, dessa vez provocada por um orçamento que admiti.

Como você sabe, a vida de fotógrafo independente nunca foi fácil, e tem piorado. Aquele leão que matávamos todos os dias, agora vem com a leoa e mais dois leõezinhos famintos. Ainda bem que mantemos clientes antigos e fiéis, que de 3 em 3 anos, nos chamam para fazer o mesmo trabalho.

Pois um deles apareceu e me pediu para fazer o retrato de seu presidente, que eles distribuem pra a imprensa e usam na comunicação interna. Nem me lembrava quanto cobrei na última vez. Mas me lembro que eles já haviam pedido um orçamento ano passado. Eu tinha cobrado R$ 1.200. Mas a secretária me ligou e perguntou se eu não faria por R$ 1.000.

Claro que sim, ué? Gosto muito de tê-los como clientes (odeio esse termo). Mesmo assim, não me chamaram. Fiquei achando que tinham preço melhor.

Mais de um ano depois, novo contato. Fiquei sabendo que eles não haviam feito o trabalho mas mesmo assim fiquei encafifado pelo ano anterior, e mandei outro orçamento, de R$ 800.

Depois de algumas semanas, me ligaram para confirmar data, mas perguntando se não poderia melhorar o preço. Bom, o melhor é me dizerem o quanto podem gastar, não é mesmo?

R$ 500.

Olha, pra mim é um prazer fazer esse trabalho, como sempre fiz, …”. E depois, eles devem ter alguém que vai fazer por esse valor.

Meu coração dói e minha garganta engasga, querido diário, mas tem os leõezinhos, sabe? E depois, não deve acontecer só comigo, não é? Um amigo, por exemplo, faz anualmente um grande trabalho para um grupo varejista. Há 3 anos cobrava R$ 20 mil pelo trabalho completo. Ano passado, disputou com outros dois concorrentes. Um mandou o valor próximo ao dele. O outro botou pra quebrar. Pediu R$ 5 mil.

O cliente (odeio esse termo) achou uma extravagância e não abriu mão do trabalho que já conhecia. Apesar da diferença, manteve tudo como havia sido no ano anterior.

Mas aí veio a crise, né? Esse ano teve nova concorrência e lá estavam as mesmas propostas, iguaizinhas às do ano passado: um de 20, outro de 5.  A empresa não titubeou e definiu a situação perguntando ao meu amigo se ele faria por R$ 10 mil, ou eles teriam que aceitar o outro orçamento.

“Olha, pra mim é um prazer fazer esse trabalho, como sempre fiz, …”.

Hoje vou dormir mais tarde. Estou sem sono. Escrevo para você, querido diário, para ajudar a assimilar tudo isso e entender o que um outro amigo quer dizer com “o que vai definir o nível do trabalho a ser contratado é o mercado”. Tenho que pensar sobre essa frase.

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NYT Aplica o Manual e Tira Ensaio do Ar

13 de julho de 2009

Bastou Michele McNally citar o manual de ética do New York Times (ver post anterior) para logo ter onde aplicá-lo.

Depois de ter a confirmação de que um trabalho encomendado ao fotógrafo português Edgar Martins continha fotos com “alterações digitais, aparentemente por razões estéticas” , como diz a nota do editor do NYT, o jornal tirou-as de seu site.

Quem tem a versão impressa da The Times Magazine On Sunday do dia 05/07 ainda poderá ver o ensaio sobre grandes projetos arquitetônicos abandonados por causa crise, que Martins produziu em 21 dias de viagem pelos EUA.

Embora alguns sites citem declarações de Martins afirmando que não interfere em fotos, para o jornal português Público ele disse que o problema foi do “NYT ter vendido a história como vendeu”; reafirma não haver manipulado imagens, mas acrescenta: “sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo. Eu não fui para observar, fui para comentar”.

Em seu papel, Martins tenta justificar uma suposta travessura com um desafio que não é novo. Mexer em fotografias documentais se tornou aceitável em diversos níveis. Muitos profissionais acham natural por não haver um limite estabelecido e, lembremos, não obstante o problema tenha ocorrido numa revista, não no jornal. Para muitos isso é uma grande diferença. Por quê?

Por um certo tempo a Folha de S. Paulo parecia estimular fotógrafos a transformarem suas imagens, sem indicar a artimanha ao leitor. Arte e Fotografia sentavam na mesma mesa.

O NYT, entretanto, aplicou seu manual. E poderia ser diferente? Na catalogação do que é permitido ou não de imagens jornalísticas, eles assumem que “imagens em nossas páginas, em papel ou na web, que pretendem retratar a realidade, devem ser verdadeiras em todos os sentidos”.

E essa orientação, de tão óbvia, não me parece ser diferente de outros jornais no mundo.

Seria como ser multado em outro país e argumentar que na sua cidade uma placa com bordas vermelhas e um 100 escrito no centro não significa o limite de velocidade.

Nessa conversa de que a fotografia jornalística mudou e existem interpretações do real, os limites não se alargam, são degradados; porque documentação é uma linguagem flexível mas não pode ser alterada criativamente para se tornar outra.

O NYT quer proteger sua cara legitimidade porque é disso que ele vive e se essa intransigência não for apliacada, vira festa do caquí . Os jornais daqui também vivem disso, mas às vezes dão sua interpretação livre. Por isso que por mais que se tenha boa vontade, tem jornal que se lê e ainda fica a dúvida se o que está escrito é verdade.

O fato interessante do caso foi que o descobridor da manipulação das imagens, segundo o Público, foi Adam Gurno, um leitor. Sobrou para Edgar Martins.

Código de Ética do New York Times

7 de julho de 2009

Essa é uma tradução da parte do manual de ética do NYT, citado pela editora gerencial assistente de Fotografia, Michele McNally, na seção Talk to the Newsroom.

Mais precisamente, é o capítulo Photography and Images section of The New York Times Company Policy on Ethics in Journalism.

Para quem preferir, o texto original está no link acima, láááá embaixo. Mas vale se deter em outros assuntos tratados por ela, que são parecidos com os nossos, mas bastante diferentes.

Imagens em nossas páginas, em papel ou na web, que pretendem retratar a realidade, devem ser verdadeiras em todos os sentidos. Nenhuma pessoa ou objeto podem ser adicionados, rearranjos, invertidos, distorcidos ou removidos de uma cena (exceto para a reconhecida prática do corte para omitir porções externas estranhas). Ajustes de cor ou escala de cinza deve ser limitada às minimamente necessárias para a clara e precisa reprodução, análogas à “queima” e “proteção” praticados no processamento de imagens na antiga câmara escura. Fotos de notícias não devem ser posadas.

Em algumas seções e nas revistas, sempre que uma fotografia for utilizada para os mesmos fins de um desenho ou pintura – como na ilustração de uma idéia ou situação, ou como uma demonstração de como um dispositivo funciona, etc – deve ser sempre claramente identificada como uma foto ilustração. Isto não se aplica aos retratos ou still (fotos de alimentos, calçados, etc), mas se aplica a outros tipos de fotos em que pessoas ou coisas foram artificialmente arranjadas, bem como para colagens, montagens, e fotografias que tenham sido alteradas digitalmente.

Obrigatoriamente, em todos os casos como estes, uma linha com o crédito de imagem começa com “foto ilustração”. Ocasionalmente, uma explicação sobre a legenda pode ser aconselhável.

Fotografias alteradas ou com cenas criadas são um dispositivo que não deve ser usado além do razoável. Tirar fotografias de pessoas reais não identificadas como ilustrações de uma situação genérica (como usar um editor ou outro modelo numa pose desanimada para representar executivos demitidos), geralmente acaba por ser uma má idéia.

Se você tiver alguma pergunta sobre a conveniência de uma alteração ou não tem certeza sobre a melhor forma de tornar claro para o leitor que a imagem foi manipulada ou a cena criada, consulte o diretor de fotografia, editor das normas (manual de redação), diretor de arte, ou o News Desk (mas antes de postar na web ou da prova final de uma página impressa, para evitar divergências de última hora e insatisfatórias soluções improvisadas).