NYT Aplica o Manual e Tira Ensaio do Ar

Bastou Michele McNally citar o manual de ética do New York Times (ver post anterior) para logo ter onde aplicá-lo.

Depois de ter a confirmação de que um trabalho encomendado ao fotógrafo português Edgar Martins continha fotos com “alterações digitais, aparentemente por razões estéticas” , como diz a nota do editor do NYT, o jornal tirou-as de seu site.

Quem tem a versão impressa da The Times Magazine On Sunday do dia 05/07 ainda poderá ver o ensaio sobre grandes projetos arquitetônicos abandonados por causa crise, que Martins produziu em 21 dias de viagem pelos EUA.

Embora alguns sites citem declarações de Martins afirmando que não interfere em fotos, para o jornal português Público ele disse que o problema foi do “NYT ter vendido a história como vendeu”; reafirma não haver manipulado imagens, mas acrescenta: “sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo. Eu não fui para observar, fui para comentar”.

Em seu papel, Martins tenta justificar uma suposta travessura com um desafio que não é novo. Mexer em fotografias documentais se tornou aceitável em diversos níveis. Muitos profissionais acham natural por não haver um limite estabelecido e, lembremos, não obstante o problema tenha ocorrido numa revista, não no jornal. Para muitos isso é uma grande diferença. Por quê?

Por um certo tempo a Folha de S. Paulo parecia estimular fotógrafos a transformarem suas imagens, sem indicar a artimanha ao leitor. Arte e Fotografia sentavam na mesma mesa.

O NYT, entretanto, aplicou seu manual. E poderia ser diferente? Na catalogação do que é permitido ou não de imagens jornalísticas, eles assumem que “imagens em nossas páginas, em papel ou na web, que pretendem retratar a realidade, devem ser verdadeiras em todos os sentidos”.

E essa orientação, de tão óbvia, não me parece ser diferente de outros jornais no mundo.

Seria como ser multado em outro país e argumentar que na sua cidade uma placa com bordas vermelhas e um 100 escrito no centro não significa o limite de velocidade.

Nessa conversa de que a fotografia jornalística mudou e existem interpretações do real, os limites não se alargam, são degradados; porque documentação é uma linguagem flexível mas não pode ser alterada criativamente para se tornar outra.

O NYT quer proteger sua cara legitimidade porque é disso que ele vive e se essa intransigência não for apliacada, vira festa do caquí . Os jornais daqui também vivem disso, mas às vezes dão sua interpretação livre. Por isso que por mais que se tenha boa vontade, tem jornal que se lê e ainda fica a dúvida se o que está escrito é verdade.

O fato interessante do caso foi que o descobridor da manipulação das imagens, segundo o Público, foi Adam Gurno, um leitor. Sobrou para Edgar Martins.

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2 Respostas to “NYT Aplica o Manual e Tira Ensaio do Ar”

  1. Zé Paiva Says:

    fiquei curioso Masao, qual foi a estripulia que o Edgar fez? acho incrivel como a imprensa continua acreditando que a fotografia é o que nunca foi, realidade. acho que ja deveria ser notorio que tanto tecnologicamente quanto humanamente a fotografia sempre foi uma interpretação da realidade, tanto quanto um texto (palavras do Pedro Meyer).

    • Masao Says:

      Zé Paiva, talvez seja realmante mais simples aplicar a norma de interpretação da realidade, mas seria interessante classificarmos seus níveis. A complexidade disso pode nos desanimar em definir o quanto o que se vê pode ser alterado e em que tipo de mídia.
      Uma foto jornalística deve ter o compromisso em apresentar um objeto, mesmo que interpretado de uma forma intangível. Não cabem aqui – e nunca couberam – retoques e alterações.Caso haja, como sugere a norma do NYT, é importante que o leitor o saiba.
      Mas em um ensaio fotográfico, autoral, ou mesmo em um trabalho institucional, assim como no publicitário, essa exigência é bastante relativizada.
      Podemos listar variados eventos onde interferências na imagem são aceitáveis. Mas acho que no jornalismo, sem informar ao leitor, não está entre eles.
      Creio que a interpretação humana a que você se refere acontece no momento do registro. A tecnológica é usada para transformá-la posteriormente.

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