Memória de um Metrô bruto, e saliente.

Quem mora perto de uma estação de metrô em São Paulo está com tudo. Quando morava no Rio, evidentemente preferia ir ao centro da cidade de ônibus, aquele que passa pelo Aterro ou o que segue pela Praia do Flamengo. Mas em São Paulo, o que é uma paisagem para ser vista?

Além do mais, o trânsito aqui é infernal. Não que os 62 km de trilhos distribuídos por suas atuais 4 linhas dêem conta de um fluxo diário de mais de 3 milhões de usuários e conforto a ponto de deixarmos sempre o carro em casa. Não se iluda: andar de metrô em São Paulo também é estressante.

Mas se não tem a paisagem, tem os personagens. Desde sempre houve a curiosidade nesses cidadãos comuns que atravessam a metrópole por baixo da terra, que nem tatu. Até Stanley Kubrick fez um ensaio fotográfico para a revista Look em sua fase jornalística, talvez inspirado pelas fotos de Walker Evans (que começou este trabalho antes, mas só o publicou mais tarde).

Esta semana saí correndo de casa e achei que o metrô seria o transporte mais rápido naquele horário. Na verdade, ansioliticamente também era a melhor opção, uma vez que atrasados no trânsito normalmente fazem barbaridades.

Talvez não seja diferente no metrô. É comum a moça atrás de você dar um empurrãozinho depois que a campainha toca e daí você empurra alguém que não quer entrar no corredor e que se vira com um olhar severo contra sua falta de etiqueta. Numa cidade onde pouca gente dá a vez, isso infelizmente não é anormal.

Mas neste dia, o caldo entornou. Não para mim, conformado com o status de “atrasado”, tentando não fazer com que isso me tornasse também um mal-educado.

Ao invés de descer na Sé, desço na Boa Vista – tem menos movimento. Tento fugir pela beira, próximo à parede, ando uns 10 metros mas percebo que algo que não pode tirar minha concentração e meu objetivo de andar rápido agita a plataforma com gente torcendo o pescoço na direção do trem.

Num segundo, o que parecia estar em outro vagão atravessa minha frente, a menos de dois metros (o que não é muito na velocidade de caminhada). Um mulato – que nem era exatamente fortão – careca e de mochila, joga outro homem violentamente contra o anúncio de metal de algum MBA preso ao paredão de concreto da estação, bem a minha frente. O jogado, de calça moleton, camiseta e mochila, desabou num estrondo. Seu único bem à mão voou e partiu ao meio, caindo a bateria para um lado e o fone para outro. O careca gritava: “você bate em uma senhora, quero ver bater em homem”.

Minha primeira reação foi tentar fazer o deixa-disso, mas num piscar, para ver se era isso mesmo que estava acontecendo, pensei: vou assistir.

O homem de moleton se justificava dizendo que a mulher que havia agredido o havia empurrado antes, para sair do trem. E tome outro safanão do careca. A senhora em questão olhava tudo com cara de brava. Só pode dizer no final, “você tem que apanhar, mesmo. E eu não preciso dele (careca) pra isso, viu?”.

Nos 30 segundos que tudo isso deve ter durado não dei nenhum passo. Era o primeiro da fila. Não era a primeira briga que presenciava no metrô, mas nem por isso tudo me pareceu familiar. São Paulo tem se tornado uma cidade infeliz, onde as gentilezas chamam a atenção de tão raras. Andar pelo centro na hora do almoço, por exemplo, é selvagem.

Para mim, isso é resultado de uma seqüência de prefeitos carrancudos, incapazes de trazer o humor e a alegria ao poder. A cidade reflete. O metrô sintetiza.

Volta pra Casa

Pior do que vir correndo, atrasado, é voltar carregado de bolsas. São mais de 8 horas da noite, dia cheio, torço, rezo e o trem vem vazio. Mesmo assim não deu para sentar depois de baldear para a linha verde.

De pé, no corredor mas próximo da porta, acompanho os passageiros que entram na estação Trianon-Masp. Uma delas entra falando no celular e me faz lembrar do meu passatempo atual, que é navegar com o gps do google pelo maps mobile. Antes mesmo de ver se meu celular receberia sinal do satélite no metrô, a moça que parecia ter saído de uma aula de marketing administrativo da GV, com uma bolsa de couro no ombro, sapato com saltinho e um vestido tomara-que-caia estampado, para na minha frente e reage como se tivesse perdido o sinal da operadora. Olhando o aparelho flip e dando a entender que a tela havia umedecido com o suor de seu rosto, encosta o aparelho ao seio esquerdo e tenta limpa-lo com movimentos circulares, lentos, pensativos, sem muito rigor.

Eu olhei, mas tinha mais gente olhando. Só que ela estava bem na frente, muito mais perto do que o homem atingido por um safanão na estação Boa Vista.

Ela olhou o aparelho, bem próximo do que poderia ser descrito como o correspondente a 300 ml de uma prótese de silicone perfil alto – não tivesse a aparência natural. Ainda não estava limpo. Então encostou-o novamente no mesmo peito e massageou o aparelho.

Eu desviei o olhar – afinal, sou casado – e o aparelho deve ter tocado ou vibrado, porque ela o atendeu.

Estava passando um anúncio de peça teatral na TV Minuto. Ou algo relacionado à estréia do Robinho, sei lá. O problema do momento é que a ligação ia terminar e o aparelho estaria sujo de novo.

Olha, é difícil se mexer no metrô com duas bolsas no ombro e acho que eu estava até com um guarda-chuva na mão. Mas nem precisei me mover: enfim, Estação Vila Madalena.

Tem momentos que realmente não me importo por não fotografar. Antes mesmo de fabricarem os modelos digitais, a memória já tinha sua valia. Só precisa olhar com atenção.

Memória e atenção. Não ande no metrô sem elas. Mas cuidado para não se meter em brigas.

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