Um thriller para Anuar, brasileiro deportado de Israel e morador nas ruas de São Paulo

 

Há 6 meses Anuar Mohammad desembarcou no aeroporto de Cumbica, vindo de Israel. Sem dinheiro e sem falar português, conseguiu embarcar em um ônibus que o fez descer no centro de São Paulo. Três dias antes, por volta das 19 horas, ele havia deixado o restaurante Eucalyptus, em Jerusalém, onde trabalha como cozinheiro. A caminho de Qalandiya, vilarejo onde tem uma casa e terras, foi abordado por oficiais israelenses e a eles mostrou o único documento que carregava: um passaporte brasileiro, sem visto. Embora more há 33 anos no lado palestino da cidade, seja filho de árabes, casado e tenha 6 filhos árabes, Mohammad nasceu em Salvador (BA). Sua família deixou o Brasil quando ele tinha 7 anos. Mohammad, 44 anos, então, foi preso e deportado.

 

Desde que chegou a São Paulo, é um morador de rua e perambula pela cidade. Achou um lugar ao lado da catedral da Sé para pedir auxílio onde fez rápidas amizades. As pessoas passam e o cumprimentam. Um dia lhe disseram que a região da rua 25 de março é um reduto árabe. Aí, ele desceu a Ladeira Porto Geral e sentiu familiaridade com nomes nas ruas Jorge Azem, Basílio Jafet e Ragueb Chohfi. Perguntando em sua língua sobre a dita comunidade, ninguém lhe deu atenção.

 

20180206_140650

 

Jair” (nome fictício para um rapaz que não quer ser identificado), trabalha na região e passa diariamente por onde Anuar Mohammad senta e pede comida ou dinheiro, achou a filha mais velha – 22 anos – pelo Facebook e sempre que se encontram na calçada, faz uma ligação internacional para que ele fale com a família. “Penso na minha filha e fico com muita saudade”, diz, e se interrompendo abaixa a cabeça. Passa os dedos de pele grossa e pouco sujos nos olhos rapidamente e volta à conversa. As poucas palavras em português que fala – misturadas com árabe ou hebraico, às vezes incompreensíveis – aprendeu nestes 6 meses de necessidade e algumas expressões foram voltando, relembradas da infância. “Meus pais moraram na Bahia por 15 anos. Aí, quando eu tinha 7 anos fomos embora“. Já falou pelo celular de “Jair” com sua mãe, Tofaha Khutbi, a quem se refere curiosamente por “mãinha”. Seu pai, “painho”, já morreu.

 

Eu tenho tudo lá em Jerusalém. Família, casa, carro, trabalho. Minha casa parece isso aqui”, apontando para a parede lateral da Catedral da Sé. “Mas a polícia israelense não quis saber. Sem visto, eu não podia ficar”. Seu amigo, “Jair”, confirma: “a filha dele me mandou as fotos da família, ele com o carro, a casa”. No prédio onde mora com esposa e prole muçulmana, moram também judeus e cristãos, o que é comum na região. Pois aqui, ele se descobriu evangélico. “Eles são muito bons conosco. Todo dia vem um e diz ‘Jesus te ama’, e outro ‘ Jesus te ama’, ‘ Jesus te ama’…acabei me convencendo. Agora no prédio vai ter judeu, cristão, muçulmano e um evangélico”.

 

Até as pedras atiradas na Cisjordânia sabem que não é uma boa ideia andar pela rua sem papéis legais na região onde Anuar Mohammad vive. Como poderia ele viver e trabalhar sem tê-los? Uma fortuita pesquisa no Facebook já encontra um perfil dele – sem nenhuma atividade – com endereço em Salvador. Contou que trabalhava no restaurante The Eucalyptos, que realmente existe em Jerusalém, com o chef de mesmo nome que ele forneceu, Moshe Basson, mas não responderam ao e-mail enviado. Alguns amigos no país foram encontrados na busca de “Jair” mas logo pararam de responder e sumiram. Aparentemente, ele tem algum enrosco que o liga ao Brasil. Nenhum deles o aceitou nesse momento e Anuar ficou à deriva pelas ruas de São Paulo.

 

Nesse tempo, não quis saber de abrigos públicos. Para ele, “são lugares que reúnem pessoas ruins e fica um ambiente muito ruim”. Depois de dormir nas ruas, ser roubado e conhecer outros tantos apertos de quem está no asfalto, por sorte, acaso ou ajuda divina e financeira, um rapaz o instalou num quarto – que ele também não gosta. O caso é que ele conta com a ajuda do irmão, localizado pelo amigo “Jair”, que mora nos EUA e manda um dinheiro de vez em quando.

 

O último envio chegou na quarta-feira, 7 de fevereiro. Quantia necessária para Anuar Mohammad chegar ao aeroporto a caminho de casa, 6 meses depois. Uma advogada pública o ajudou a tirar novo passaporte – emitido dia 23 de janeiro – e há uma semana tem impresso o bilhete da Royal Air Maroc para o voo que nos primeiros minutos de segunda-feira  o levará ao encontro da esposa em Amã (Jordânia). De lá, voltam a Qalandiya, West Bank, Palestina. Aí, Anuar Mohammad Ahmmad Abdel Kader verá seus 6 filhos, tentará retomar seu emprego na cozinha do The Eucalyptus e terá 3 meses para legalizar os papéis em seu atual país.

Ou não. Porque é uma história de uma versão só, mais parecendo um roteiro de filme. Na vida real, pode-se dizer que Anuar teve sorte ou azar? Quantos podem ser parados numa blitz e de repente perder o que têm?

Anúncios

Uma resposta to “Um thriller para Anuar, brasileiro deportado de Israel e morador nas ruas de São Paulo”

  1. rabinovicimoises Says:

    Com tanto tempo em Kalandya, na Cisjordânia, e trabalhando num restaurante israelense, Anuar teria que ter, obrigatoriamente, uma identidade de árabe-israelense.. Todos os palestinos que trabalham em Israel a possuem. Estranha história.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: