Decisões do Instinto

publicado pelo Fotosite

Assim como outras grandes imagens, uma das mais interessantes fotos do jornalismo publicadas neste ano só pôde ser feita por conta do acaso e de presença de espírito. Num momento imprevisível e surpreendente, Tiago Brandão, do jornal Comércio de Franca, flagrou o desespero de Márcia Jerônima Campos, ao ver seu filho Gabriel, de 7 anos, se debatendo na água de um poço na zona periférica da cidade. Na manhã daquela segunda-feira, Tiago, que trabalha a tarde como editor, fora convocado em casa para um vôo sobre Franca, a fim de registrar os danos causados pelo temporal que havia caído no final de semana. Como ainda chovia, mudou de planos. Não voou e comunicou ao seu companheiro diário de pautas, o motorista Wilson Batista, que o destino era o SESI, onde alguns moradores buscavam abastecimento de água. No meio do caminho, decidiu parar ao ver uma senhora agachada próximo a uma bica, com seus três filhos e seis garrafas pet a serem enchidas. A partir daí, em menos de três minutos todos esses personagens viveriam uma seqüência emocionante de acontecimentos, com um final agora conhecido.

A história da mãe que se jogou em um poço para salvar o filho mesmo sem saber nadar, foi contada por diversos jornais e telejornais do país. Paralelamente, foi lançada a questão do porquê o fotógrafo não tê-la ajudado a salvar Gabriel, que também não sabia nadar. Tiago, que tampouco o sabe, olhava através do visor de sua 30D mirando uma imagem autorizada: um quadro fechado das mãos de Jerônima, que enchia uma das garrafas. Com o susto do barulho de algo caindo dentro d’água, nem chegou a fazer essa foto. Levantou o rosto, viu um menino se afogando, a mãe em desespero, os dois irmãos gritando, o motorista Wilson e um outro desconhecido correndo para auxiliá-los. Levantou a câmera e recomeçou a fotografar.

Fa la foto o aiuti il bambino?

Os ânimos já estão mais calmos. Jerônima e Tiago já se encontraram, pelo menos duas vezes, em um clima diferente do divulgado pela imprensa, que estimulou a discussão sobre o papel do fotógrafo no incidente.

Essa discussão – a interferência ou não do fotógrafo numa cena que esteja registrando – é antiga, mas nem por isso, inquestionável. Os paparazzi italianos têm até a pergunta pronta: se você vir uma criança numa lata de lixo, você faz a foto ou ajuda a criança? A resposta mais freqüente é salomônica. Faz um, depois o outro. Mas seria isso possível?

Olga Vlahou, editora de fotografia da revista Carta Capital e ela mesma ex-paparazzi na Itália, não teria dúvidas em ajudar a criança e até cair n’água sem saber nadar. Mas se só houvesse ela por perto. Jonne Roriz, do Estado de S. Paulo e um dos profissionais admirados por Tiago, também largaria a câmera e socorreria alguém, como fez com a juíza que teve seu pé espetado por um dardo numa competição de atletismo. Mas ele já tinha feito a foto. Eu, pensando agora numa suposta cena de perigo, também penso em ajudar. Mas sendo uma suposição, fica fácil. O que acontece na nossa mente quando olhamos através da câmera e vemos uma cena interessante acontecendo pode nos fazer ter atitudes inesperadas. É o instinto?

Todo mundo gosta de dizer que é a adrenalina, hormônio produzido nas glândulas supra-renais que acelera o fluxo de sangue no corpo em situações de estresse. Este pode ser causado até pelo calor, ou pela percepção do perigo, o que gera o medo. Isso já acontece no sistema emocional do cérebro, mais precisamente, na amígdala, que é alertada pelos sentidos (olfato, audição, visão) e prioriza as reações. Foi com um desses sentidos que Tiago percebeu a queda de Gabriel na água.

Aves de Rapina

Sim, pode ser o instinto. E o oposto disso é a racionalização. A gente olha uma cena, avalia, pensa se vale a pena fotografar…acabou a cena. Kevin Carter, fotógrafo sul-africano, autor da premiada foto de um abutre observando uma agonizante criança sudanesa, não pensou muito: “o meu primeiro instinto de fotojornalista, foi tirar a foto”, disse ele em uma entrevista.

Essa foto tem uma história paralela dramática. Dois meses depois de ser premiado com o Pulitzer, o mais prestigiado prêmio do jornalismo mundial, em 1994, Carter cometeu suicídio com o gás carbônico de seu próprio carro, à beira de um rio, em Johannesburgo.

Carter era um fotógrafo militante. Juntou-se a outros três fotógrafos e decidiram cobrir todos os atos e manifestações que denunciassem a política de apartheid em seu país, a África do Sul. Eram tão ousados na forma de trabalhar que receberam o apelido de Bang Bang Club. O acaso fez com que sua foto mais famosa fosse feita em outro país.

Embora possam existir muitos motivos que tenham levado Carter a extremo ato, as versões mais divulgadas foram sobre a sua depressão por ser impotente para enfrentar as injustiças sociais e a de se ver ele mesmo como um abutre, diante de seus objetos fotografados.

Para muitos é o que somos, aves prestes a rapinar uma imagem. Dito dessa forma, é o que mais tememos ser. Mas se considerarmos que a profissão que escolhemos implica um não envolvimento e que interferir na notícia não é nosso papel, o ponto de vista gira 180º. Para Maurício Lima, fotógrafo da France Presse, não há meio termo. Conviver com a dubiedade, além de dúbio, é uma hipocrisia.

“Quando você começa a salvar as pessoas, você vai querer sempre fazer isso”, afirma Maurício, que já se viu em situações onde teve de tomar decisões dessa natureza nas suas quatro passagens pelo Iraque. Confessa que já sentiu vergonha de alguma atitude que tenha tomado quando esteve trabalhando junto ao exército americano, “mas ter determinada postura faz parte do meu trabalho profissional”.

Tiago Brandão, que iniciou esta coluna, acha que o seu trabalho profissional foi bem feito, tomando as decisões que seus discernimento e instinto mandaram. No dia seguinte, o poço que existe há mais de 8 anos foi cercado para evitar novos acidentes. Embora tenha passado por implicâncias generalizadas por sua atitude – um blog publicou a foto de seu filho sugerindo que fosse fotografado se afogando – não se considera o abutre impingido aos fotógrafos em certas situações. Maurício Lima, muito menos. E, provavelmente, nem Kevin Carter.

Na versão de sua filha, Megan, a premiada foto de Carter não deve ser interpretada como seu pai sendo uma ave olhando para sua vítima, a miséria do mundo. Para ela, o mundo, este sim, é o abutre. Kevin Carter era a criança.

2 Respostas to “Decisões do Instinto”

  1. Os números de 2010 « MaSaoGotOfiLHo Says:

    […] Decisões do Instinto […]

  2. Os números de 2010 « MaSaoGotOfiLHo Says:

    […] Decisões do Instinto […]

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