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Um thriller para Anuar, brasileiro deportado de Israel e morador nas ruas de São Paulo

8 de fevereiro de 2018

 

Há 6 meses Anuar Mohammad desembarcou no aeroporto de Cumbica, vindo de Israel. Sem dinheiro e sem falar português, conseguiu embarcar em um ônibus que o fez descer no centro de São Paulo. Três dias antes, por volta das 19 horas, ele havia deixado o restaurante Eucalyptus, em Jerusalém, onde trabalha como cozinheiro. A caminho de Qalandiya, vilarejo onde tem uma casa e terras, foi abordado por oficiais israelenses e a eles mostrou o único documento que carregava: um passaporte brasileiro, sem visto. Embora more há 33 anos no lado palestino da cidade, seja filho de árabes, casado e tenha 6 filhos árabes, Mohammad nasceu em Salvador (BA). Sua família deixou o Brasil quando ele tinha 7 anos. Mohammad, 44 anos, então, foi preso e deportado.

 

Desde que chegou a São Paulo, é um morador de rua e perambula pela cidade. Achou um lugar ao lado da catedral da Sé para pedir auxílio onde fez rápidas amizades. As pessoas passam e o cumprimentam. Um dia lhe disseram que a região da rua 25 de março é um reduto árabe. Aí, ele desceu a Ladeira Porto Geral e sentiu familiaridade com nomes nas ruas Jorge Azem, Basílio Jafet e Ragueb Chohfi. Perguntando em sua língua sobre a dita comunidade, ninguém lhe deu atenção.

 

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Jair” (nome fictício para um rapaz que não quer ser identificado), trabalha na região e passa diariamente por onde Anuar Mohammad senta e pede comida ou dinheiro, achou a filha mais velha – 22 anos – pelo Facebook e sempre que se encontram na calçada, faz uma ligação internacional para que ele fale com a família. “Penso na minha filha e fico com muita saudade”, diz, e se interrompendo abaixa a cabeça. Passa os dedos de pele grossa e pouco sujos nos olhos rapidamente e volta à conversa. As poucas palavras em português que fala – misturadas com árabe ou hebraico, às vezes incompreensíveis – aprendeu nestes 6 meses de necessidade e algumas expressões foram voltando, relembradas da infância. “Meus pais moraram na Bahia por 15 anos. Aí, quando eu tinha 7 anos fomos embora“. Já falou pelo celular de “Jair” com sua mãe, Tofaha Khutbi, a quem se refere curiosamente por “mãinha”. Seu pai, “painho”, já morreu.

 

Eu tenho tudo lá em Jerusalém. Família, casa, carro, trabalho. Minha casa parece isso aqui”, apontando para a parede lateral da Catedral da Sé. “Mas a polícia israelense não quis saber. Sem visto, eu não podia ficar”. Seu amigo, “Jair”, confirma: “a filha dele me mandou as fotos da família, ele com o carro, a casa”. No prédio onde mora com esposa e prole muçulmana, moram também judeus e cristãos, o que é comum na região. Pois aqui, ele se descobriu evangélico. “Eles são muito bons conosco. Todo dia vem um e diz ‘Jesus te ama’, e outro ‘ Jesus te ama’, ‘ Jesus te ama’…acabei me convencendo. Agora no prédio vai ter judeu, cristão, muçulmano e um evangélico”.

 

Até as pedras atiradas na Cisjordânia sabem que não é uma boa ideia andar pela rua sem papéis legais na região onde Anuar Mohammad vive. Como poderia ele viver e trabalhar sem tê-los? Uma fortuita pesquisa no Facebook já encontra um perfil dele – sem nenhuma atividade – com endereço em Salvador. Contou que trabalhava no restaurante The Eucalyptos, que realmente existe em Jerusalém, com o chef de mesmo nome que ele forneceu, Moshe Basson, mas não responderam ao e-mail enviado. Alguns amigos no país foram encontrados na busca de “Jair” mas logo pararam de responder e sumiram. Aparentemente, ele tem algum enrosco que o liga ao Brasil. Nenhum deles o aceitou nesse momento e Anuar ficou à deriva pelas ruas de São Paulo.

 

Nesse tempo, não quis saber de abrigos públicos. Para ele, “são lugares que reúnem pessoas ruins e fica um ambiente muito ruim”. Depois de dormir nas ruas, ser roubado e conhecer outros tantos apertos de quem está no asfalto, por sorte, acaso ou ajuda divina e financeira, um rapaz o instalou num quarto – que ele também não gosta. O caso é que ele conta com a ajuda do irmão, localizado pelo amigo “Jair”, que mora nos EUA e manda um dinheiro de vez em quando.

 

O último envio chegou na quarta-feira, 7 de fevereiro. Quantia necessária para Anuar Mohammad chegar ao aeroporto a caminho de casa, 6 meses depois. Uma advogada pública o ajudou a tirar novo passaporte – emitido dia 23 de janeiro – e há uma semana tem impresso o bilhete da Royal Air Maroc para o voo que nos primeiros minutos de segunda-feira  o levará ao encontro da esposa em Amã (Jordânia). De lá, voltam a Qalandiya, West Bank, Palestina. Aí, Anuar Mohammad Ahmmad Abdel Kader verá seus 6 filhos, tentará retomar seu emprego na cozinha do The Eucalyptus e terá 3 meses para legalizar os papéis em seu atual país.

Ou não. Porque é uma história de uma versão só, mais parecendo um roteiro de filme. Na vida real, pode-se dizer que Anuar teve sorte ou azar? Quantos podem ser parados numa blitz e de repente perder o que têm?

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Terceiro Tempo

7 de fevereiro de 2018

Hoje encontrei Janaína, com quem trabalhei na editora Globo. Está casada com Alberto, com quem trabalhei no Estadão. Estão cuidando de uma loja de antiguidades na Avenida São João. Mas Janaína usa o tempo que lhe sobra para cuidar também de outros velhos assuntos, que é a memória de seu pai, Tito Batini, socialista e militante do PCB nos áureos tempos em que o partidão conquistava eleitores e seguidores pelo país pós Estado Novo.

Ela me aconselhou: publique isso tudo que você faz em um blog. Ótima ideia, até porque, assim como ela, também tenho memórias de outros para serem lembradas. Não tenho um antiquário para cuidar. Meu plano é vender biscoito Globo e mate com limão de bicicleta.

Portanto, mais uma vida a esse blog.

Cachaça a 360º

30 de setembro de 2016

O alambique de Maria Izabel fica em um sítio à beira da baía em Paraty. A sua cachaça está sempre na listagem das melhores do país. Ir até lá, experimentar pingas, conhecer as três praias dentro da propriedade e conversar com a dona de tudo isso é algo que todos deveria experimentar.

Abaixo, ou direto no https://www.youtube.com/watch?v=nbrh9K265cU