Fotojornalismo em Commodities

publicado pelo Fotosite

Quem trabalha para publicações de negócios já deve ter reparado o olhar dos economistas na hora da foto. Parecem viver uma situação em que a consideram totalmente desnecessária, a não ser para duas finalidades: se estão com a família, para colocar no porta-retratos do escritório ou se são donos de um mega projeto e precisam de publicidade nas revistas especializadas. Certa vez, um amigo do Rio fotografou o ex-ministro Mário Henrique Simonsen e ouviu dele: “Não sei como alguém pode querer ser fotógrafo”. Hoje Simonsen está em outro mundo e sua imagem com a boca desalinhada e olhar rebaixado em livros da história da economia.

Talvez seja o pensamento racionalista, sistêmico e sempre conjuntural que os distancie do divertido ato de ser fotografado. Na verdade, sinto mesmo é inveja desse tipo de abordagem do mundo porque é uma lógica de outro planeta. Com ela tudo pode ser justificado, para o bem ou para o mal. Um dia o País perde a corrida de serviços em alta tecnologia, no outro está disputando serviços de informática com a Índia.

Quanto deve custar a hora de um economista? Não para repetir que o PIB é baixo, os juros são altos e falta infra-estrutura. Eu gostaria que ele analisasse o mercado de trabalho do fotojornalismo. Como ele está organizado? Quais são as oportunidades? Que legislação é importante que seja seguida? O Real valorizado ajuda? O risco país tem a ver com as empresas que nos contratam, aliás, estamos em que ramo de serviços?

Voltando no tempo, o Real já esteve valorizado, mas em 1999 despencou e comprar equipamento passou a custar o triplo. Bem na hora da transição do analógico para o digital! As empresas que tinham dívidas em dólar não contratavam. Meses depois, quando nada estava bom, veio o racionamento de energia, afetando estúdios, editoras, agências…. Depois, o 11 de Setembro. O mercado de fotografia foi degradado e, por conta disso, perdemos um pouco do norte.

NA PONTA DO LÁPIS
Por certo um economista poderia analisar aqueles anos, o momento atual – que me parece bom – e nos dar alento e clareza para encarar um mercado transformado, que exige mais do que a forma tradicional de lidar com quem nos contrata e cobra certa complexidade neste relacionamento. Thomas Friedman, colunista do New York Times, conta em seu livro “A Terra é Plana”, que um amigo estava com dificuldade de trabalho nos EUA, até perceber que seu produto – a fotografia – tinha virado commodity. Na verdade, sempre o foi, considerando que essa palavra traduzida quer dizer simplesmente “mercadoria”. Mas se usarmos a terminologia como os economistas, fotografia se tornou um produto bruto negociado em grande quantidade num mercado regido por valores de bolsa, o que me parece fazer dos bancos de fotos a 1 dólar, um exemplo extremo.

O livro de Friedman é de 2005. Para o mundo dos negócios já está velho. Mas não muito para os profissionais que acreditam que ter celular e e-mail é o suficiente para navegar no tsunami das transformações mercadológicas. Gostamos dessas soluções caseiras, como um colega (mas poderia ser eu), que viajou cerca de 10 dias para uma revista mensal e produziu duas matérias. Quando voltou, editou o material e ele mesmo tratou as imagens. Isso lhe tomou dois ou três dias. Ele também escreve as matérias, desde quando o repórter que o acompanharia numa viagem não pôde ir. Portanto, diz ele, foram mais três dias de trabalho, talvez quatro. Gravou tudo num DVD e o entregou junto com a nota. Nestas circunstâncias, contas feitas, sua hora de trabalho valeu R$ 33,50. Bom para quem tem carteira assinada e benefícios; não para uma estrutura residencial porque, quando se está fora, a base de apoio está parada, ou melhor, não se capta outros trabalhos.

Essa forma de trabalho por encomenda no varejo é uma linda vila sem saída: temos (muitos) afazeres e (quase) ninguém quer saber de gastos com estrutura. Nosso economista, na ponta do lápis, poderia mostrar que organizar a vida profissional tem que ser mais do que ter uma planilha de gastos. Hoje requer gestão e um pouco de empreendimento. É claro que a gente sobrevive sem isso. Mas, em que mundo? Com que futuro? E principalmente, com a cabeça voltada para o quê?

A QUEM INTERESSAR POSSA
Desde maio passado não sou mais o Editor de Fotografia do Diário do Comércio. Lá fiz uma verdadeira pós-graduação em jornalismo, com cadeiras em inovações, terceirização do mercado de trabalho e, acima de tudo, na área humana, por conta do aprendizado com meu Diretor de Redação, Moisés Rabinovici. Espero que essa informação tire algum pessimismo que porventura o leitor tenha interpretado no artigo acima.

3 Respostas to “Fotojornalismo em Commodities”

  1. Marcio Says:

    Muito interessante o texto!
    Foi bom conhecer o blog, passarei mais vezes por aqui.

    Um abraço!

  2. Carlos Says:

    Gostei muito, sem duvida é uma visão muita clara do dificil que é ser freelancer em fotografia e dos desafios que temos que enfrentar para manter un fluxo de trabalho que nos permita ter um trabalho de qualidade e uma vida decente.

    Abraço,
    Carlos Villalba.

  3. Cleiby Trevisan Says:

    Olá meu amigo! Puxa não conhecia seu blog, acabei encontrando pelo clix. Há dois anos virei freelancer e estou sentidno na pele toda essa transformação de empregadoXempregador.
    Atualizar equipamento, aluguel de estudio, pagamento de assistente, pagamento de impostos…..e não para por ai.
    Hoje, com essa crise toda, os contratantes pedem descontos, prazos cada vez maiores para nossos ‘commodities’. Está difícil equilibrar a balança comercial.
    Gde abraço,
    Cleiby

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