Um Traguinho Histórico

publicado pelo NoMinimo em 19 de janeiro de 2006

Masao Goto Filho, de Paraty

Chove muito na região de Paraty. Quando as nuvens afundam entre o mar e a montanha, não há São Pedro que as sopre. Castigo do santo, pela cidade não ter dado o seu nome a alguma de suas igrejas, preferindo batizá-las de Rosário, Santa Rita e outros nomes femininos. Mas é também graça de Deus, para que ali cresça boa cana nos morros, pouco doce para o açúcar, mas ideal para virar cachaça.

Bebedores contumazes juram que a cachaça de Paraty é tradicionalmente boa, tanto que seu nome foi sinônimo de aguardente por muitos anos. Esse é o mito. A verdade: produzir cachaça em Paraty é tradição de mais de 300 anos, com os produtores de hoje recuperando heranças forjadas neste ofício. Digamos, que além de se misturar com a história do Brasil a da cachaça paratiense relata sagas familiares, através de cartas, leis, livros ou simplesmente porque um dia alguém a contou à beira da calçada.

“Meu pai vivia de fazer cachaça, meu avô também fazia e o pai dele também”, diz Eduardo Mello, dono da marca Coqueiro. Ele nasceu no antigo casarão da Fazenda do Engenho, onde sua avó, Dona Santa, reunia os netos para contar histórias da família. “Ela é que dizia: nossa família faz cachaça desde 1803”, lembra-se Eduardo, como que exibindo um diploma vitalício de alambiqueiro.

Havia no casarão um engenho, construído pelo comendador Domingos Feliciano Corrêa, pai de Dona Santa, lá pelo final do século 19. Antes disso, a esposa do comendador, Alta Maria de Alvarenga, já tocava fogo no alambique da fazenda Boa Vista. É bom considerar a lembrança de Dona Santa: tudo começou em 1803. São 200 anos produzindo o que naquele tempo era chamado de aguardente ou, preferindo o apelo do mito, de Paraty.

Os registros de fabricação da cachazza no país começam no século 16 – e na região da Ilha Grande e Angra dos Reis, a partir de 1600. Não se sabe exatamente desde quando Paraty virou sinônimo de aguardente. A referência mais famosa é a música “Camisa Listrada”, de Assis Valente, gravada por Carmen Miranda em 1938.

Rodopiando no tempo, já em 1877 um jornalzinho pernambucano de nome tão gaiato quanto uma marchinha carnavalesca, “A Duquesa do Linguarudo”, publicava: “A Patrícia, que na Corte chamam Paraty, tem no norte o nome de Canna”. Mas, já cambaleando, muito antes e em outras Cortes, a cachaça era apreciada, principalmente a produzida na então chamada Vila Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. Não apenas por ser boa, mas por ter sido brindada com uma vantagem na sua distribuição, que foi a atividade de seu porto durante o ciclo do ouro.

Cachaça em jarra de cristal

A descoberta de ouro no Brasil provocou uma desarvorada corrida às cidades mineiras no início do século 18. Imediatamente a Trilha dos Guaianás, que ligava o Vale do Paraíba ao mar, foi aproveitada e rebatizada de Caminho do Ouro. O porto utilizado para esse comércio foi o de Paraty, o segundo mais importante da Colônia, defendido por sete fortes. A cidade era próspera e já produzia cachaça, que tinha valor comercial de troca, até por escravos.

Por muitos anos o Porto de Paraty manteve sua importância, fosse por conta do açúcar e do café ou pelos móveis, roupas e jóias européias trazidos para fazendeiros paulistas. Esgotado o ciclo do ouro, a produção de cachaça tornou-se uma das principais atividades econômicas da cidade. No final do século 18, havia mais de 200 engenhos dedicados à fabricação de aguardente, que em grande parte era exportada para a Europa.

A modernização do País fez com que o porto de Paraty tivesse sua importância reduzida: uma nova estrada ligou Minas diretamente ao Rio de Janeiro, a abolição da escravatura acabou com o tráfico recorrente e impune, as fazendas de café do Vale do Paraíba entraram em decadência por falta de mão-de-obra. O que sempre ia bem era a produção de pinga. Tamanha era a oferta que, em 1893, a Câmara Municipal de Paraty criou o Imposto do Consumo de Aguardente, uma taxação que previa multa para quem vendesse mais do que o declarado.

Falar de cachaça era tão comum que, mesmo em cartas particulares, o assunto era sempre tratado. Como na carta de Maria Luiza Madruga Costa para seu marido, Francisco Lopes da Costa, datada de 19 de agosto de 1882. Maria Luiza conta seu dia e romanticamente diz que aguarda a chegada dele para o mais breve possível e completa com um PS: “Recebeu-se 5 cargueiros de aguardente, amanhã quando vier, papai escreve”. Segundo a bisneta do saudoso casal, Maria Isabel Costa, ele produzia pinga na fazenda, enquanto sua esposa morava na cidade e cuidava da educação do filho, Samuel.

Há oito anos, Maria Isabel resolveu ser ela mesma produtora de cachaça. O alambique foi construído em sua fazenda, com uma das vistas mais deslumbrantes que a região pode oferecer, de frente para a baía de Paraty. Nos tempos de ouro, alguns alambiques foram construídos em praias distantes e ilhas desta baía. Muito poucos se mantêm, às ruínas. O de Maria Isabel é novinho.

Totalmente dedicada ao ofício, ela batizou sua cachaça com o próprio nome. “Eu não tinha rótulo e todo mundo pedia a cachaça da Maria Isabel. Achei melhor não mudar.” Como leva seu nome, o produto tem que ser muito bom. Além do mais, será sua herança para uma de suas seis filhas, da mesma forma que herdou a tradição de bisavós e do avô, Samuel, também produtor de pinga. Foi ele que presenteou o Rei Alberto, da Bélgica, durante sua visita à cidade em 1940, com uma jarra de cristal, cheia de cachaça.

Samuel Costa, na verdade, foi uma grande figura pública. Por duas vezes presidente da Câmara e primeiro prefeito eleito, ele escreveu muitos artigos sobre a cidade e recuperou boa parte de sua história num período em que a cidade havia sido esquecida no século 19.

Bebida do príncipe

Paraty sempre esteve ligada às causas libertárias. Foi uma das poucas cidades brasileiras a conquistar sua autonomia através de movimento popular, em 1660, provavelmente comemorada com um trago de cachaça, sempre usada como um símbolo nacionalista em oposição ao vinho português. Assim foi na Revolução Pernambucana e na Inconfidência Mineira, além da Independência do Brasil, muito especialmente celebrada em Paraty. Já no mês de junho, numa reunião da Câmara da cidade, Dom Pedro I foi aclamado como Sua Alteza Real. No dia de sua coroação como imperador, os paratienses fizeram festa e o homenagearam, dando ao hospital da Santa Casa o nome São Pedro de Alcântara.

Mas Pedro I nunca fez uma visitinha. O acaso cuidou para que um de seus descendentes passasse por lá. Seu bisneto, o piloto Dom João de Orleans e Bragança, sobrevoando a região de Paraty, achou-a linda. Ao descer, se apaixonou. Isso foi há 50 anos. Hoje seu filho, príncipe Dom João, cuida dos negócios na cidade, entre eles, a produção da Maré Alta, a cachaça mais conhecida fora de Paraty.

“Temos muito orgulho de fazer um produto tradicionalmente brasileiro”, afirma o príncipe, diante de seus “dois dedinhos antes do jantar”. Parece não dar importância por ter uma marca aceita por especialistas como uma das melhores do país. Diz que o lucro com o alambique é zero, e mesmo assim não pretende desistir do negócio. Ao contrário, quer aumentar a produção, que já foi de 40 mil litros por safra, de olho no mercado externo. “No exterior, cachaça está muito na onda”.

Pedro II também passou pela cidade, perto de 1860. Narra a viagem em um diário e descreve como foi seu enjôo no navio. Quisesse ele chegar a São Paulo, teria a opção do Caminho do Ouro, o que talvez também não agradasse ao Imperador porque a estrada já estava abandonada. Parte desse caminho foi recentemente recuperado para visitas turísticas, na altura do Bairro dos Penha. A entrada fica exatamente em frente à propriedade de Norival Carneiro, fabricante de… bem, adivinhe o que ele fabrica ali…

Pulo do gato

O alambique de Norival produz a marca Caminho do Ouro há 4 anos. É rústico, limpo e rodeado pela mata atlântica de uma forma espetacular. Entrou no negócio por ser um sonho de seu pai, seu Francisco. “Era para ser um hobby, uma brincadeira”, afirma Norival, sem desconhecer que fazer cachaça em Paraty é coisa séria e antiga.

Soube que havia um alambique no comecinho da estrada que dá nome à sua pinga, “mas isso foi há uns 200 anos”. Um pouco mais recente foi a chegada de sua família ao Bairro dos Penha, que não tinha esse nome. Por isso, Norival está escrevendo a história do bairro e de sua família, partindo de seu avô, não coincidentemente, Edmundo Gonçalves Penha.

A produção da Caminho do Ouro é muito pequena: 4 a 5 mil litros por safra. Assim como todos os outros produtores, Norival quer aumentá-la porque vê a demanda crescendo rapidamente, sem se distrair no capricho que tem na produção. Isso, para ele, é o fundamental. “Eu diria que fazer cachaça não tem segredo. Acho que tem cuidados”, afirma. Para muitos, a afirmação seria uma blasfêmia. Afinal, faz parte do imaginário e do folclore ter um mistério, pelo menos um segredinho só seu. Pode parecer que não é mais assim. Bem, acontece que ainda é, principalmente para os mais antigos.

Eduardo Mello, apontado como um dos melhores alambiqueiros do país e primeiro no Brasil a receber o Selo de Cachaça de Excelência do Ministério da Agricultura, diz que o segredo é a fermentação. O concorrente mais próximo no ranking é Luis Mello, seu irmão, produtor da Vamos Nessa, também herdeiro da mesma linhagem de produtores de pinga. Aqui terminam as semelhanças. Os dois fazem cachaças bem diferentes, ainda que venham a usar o mesmo alambique, como já aconteceu.

Quando é questionado se é um dos melhores, Luis desconversa, dá um sorriso, acende um cigarro e comenta: “Trabalhei com meu pai por anos. Só depois de muito tempo é que descobri o seu pulo do gato.” E qual seria? Como se estivesse em dúvida sobre relevar um pecado leve, ele reflete, ajeita o inseparável boné e manda: “o corte”.

Luis se refere ao corte da alambicagem, o que separa a cabeça e o rabo, mas também tem a ver com a altura do fogo, a velocidade da destilagem. “Meu pai sempre dizia: pra fazer pinga tem que ter paciência. Se não tiver, é melhor parar e recomeçar no dia seguinte”.

Todo produtor de Paraty tem “o seu pulo do gato”. Tem também sua herança para cuidar. Cachaça e Paraty são quase a mesma entidade sob o espírito histórico-cultural. Existe um movimento para que a produção se modernize, sem perder a qualidade artesanal. Nem tanto ao mar, nem tanto à serra. Os tradicionais fabricantes implicam com as intenções dos novos e vice-versa.

Casé Gama Miranda é um dos novos. Entrou no cachaça business com 28 anos, como sócio de Dom João na Maré Alta. Criou sua própria marca, a Paratiana, e deixou a sociedade. Por suas idéias de envelhecer mais a pinga, padronizar garrafas e fazer experiências com a cana recebia olhares enviesados até de seu tio Aníbal, dono da excelente Corisco. No entanto, não há como negar, as idéias ajudaram a reorganizar os produtores.

Aos 32 anos, seus planos são de médio prazo: ter uma cachaça, buscando a excelência daqui a 6 anos, e construir seu próprio alambique no terreno que comprou no alto de um morro. Lá, durante escavações, achou uma coluna de pedras e acreditou ser um sítio arqueológico. Escavou mais e achou salão, porão e uma “boca do inferno” onde girava uma roda d’água de quatro metros. Por incrível que pareça, Casé descobriu as ruínas de um antigo engenho, com a estrutura pronta para o seu projeto.

Mais emblemático, impossível. Em Paraty, caminhando, você pode tropeçar em história. Com um traguinho, então, você conta a história do Brasil.

3 Respostas to “Um Traguinho Histórico”

  1. joão armando Says:

    parabens pelas historias da cachaça

  2. Luiz Carlos Seixas Says:

    Parabéns, Masao, seu texto fluente poderia virar livro ilustrado com umas fotos caprichadas dos alambiques e da cidade. Fotos feitas como deve ser feita a boa cachaça, sem pressa. Na melhor época do ano, na melhor hora do dia, etc. A espera, em Paratii, deve ser o melhor da história.
    Luiz Carlos Seixas (Ourinhos/SP)

  3. loraynne Says:

    vc poderia colocar umas fotos bonitas dele e sua familia

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