Posts Tagged ‘entrevista’

Germano Lüders, Editor da Exame

21 de agosto de 2008

Fosse obrigatória a função de editor de Fotografia em todas as revistas que vão às bancas, haveria, como no agrobusiness, falta de mão-de-obra especializada. Talvez fosse impossível atender tal demanda.

Ao contrário, essa função está minguando nas redações de revistas, mesmo nas semanais. Na Abril, a maior editora do país, temos Raul Júnior (Você SA), Marco De Bari (4 Rodas) e Noris Martinelli (que é editora visual da Cláudia), numa lembrança rápida que um quarto editor faz.

Germano Lüdders, da quinzenal Exame e suas afiliadas, já trabalhou com três diretores de redação diferentes durante os 8 anos em que está nesta função. Antes havia passado pela 4 Rodas e por um estúdio, que lhe deu a base para seu trabalho na revista que, segundo ele, é retratar o mundo corporativo, onde “o importante é a pauta e não a pessoa”.

Não vai aí nenhuma deferência a retratos e personalidades – a Exame também vive disso. Significa que o importante é contextualizar, ambientar e utilizar elementos na imagem para dar informações relevantes ao leitor. “É preciso contar uma história com a foto. Quando a foto é de uma pessoa, um personagem, é isso que o humaniza, o coloca dentro de seu universo. É nosso trabalho jornalístico”, diz Germano.


Enquadrar. Essa é a dica de como ele faz suas apostas em fotógrafos iniciantes que pedem seus primeiros trabalhos. Se o novato enquadra bem os assuntos, pode ter sua chance. “Isso é o que eu mais vejo. Se ele não usa bem a luz artificial, acho que poderá aprender porque é uma técnica. Enquadrar bem é um talento”.

Luz artificial, aliás, é importante no trabalho para a revista, porque a foto tem que ser produzida e parecer que foi produzida. Um bom set de luz faz isso. Ele usa tochas Lumedyne e flashes Nikon – comandados por um radio flash – para dar volume e profundidade. “Sempre observo a luz natural e tento reproduzir reflexos e luzes que já tenha visto. Normalmente jogo uma luz principal suave e vou desenhando os planos com outros flashes”.

A princípio, Germano sequer pergunta qual é o equipamento que o fotógrafo usa. Se a luz é importante, ele diz o que é fundamental: “Eu preciso saber é se ele(a) sabe lidar com gente e ter um resultado bom em um curto espaço de tempo. Nosso trabalho é todo feito disso”.

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O Mercado de Fotografia, Segundo Bob Hoggart

14 de agosto de 2008

Rob Haggart é editor de Fotografia, ou foi. Não se arrepende da decisão de deixar a redação do Men’s Journal, trocar Nova York por Durango (Colorado) e investir na Internet. Com um blog super ligado no mercado, o A Photo Editor, e muita perspicácia, já lançou uma plataforma de sites para profissionais, com direito a mostruário com trabalhos do onipresente Antonin Kratochvil (PhotoFolio, link na imagem) .

Haggart nada a favor da corrente e seu blog não é um a mais no mar de informações sem sentido, principalmente porque se preocupa em debater e apresentar questões. Faz isso sem misturar autoria, copyright e proposta de trabalho para o mercado editorial/institucional.
Em um de seus posts tem uma entrevista com o Diretor Criativo da Wired, Scott Dadich, que comenta o respeito que tem pelo trabalho dos fotógrafos que colaboram com essa prestigiosa revista. “Não dou permissão aos nossos designer cortar ou alterar nenhuma das imagens em nossas páginas e, em grande parte, tentamos não escrever sobre elas” (leia a entrevista aqui).

O Flickr parece ser um de seus assuntos preferidos. Já no início do blog ele propôs formas de fotógrafos tirarem proveito do site para serem vistos por diretores de arte (aqui). Há pouco tempo escreveu um post listando por quê editores não optariam por uma foto do Flickr para sua edição (aqui). O último cita o imbróglio criado pela Heinekein por acreditar que as fotos sob o selo Creative Commons do Flickr poderiam ser usadas livremente em publicidade (aqui).

O mais interessante é a comparação das discussões que nos envolvem. Os temas são semelhantes. Já a qualidade do debate…

O que mais precisamos aprender com Bob Haggart?

Quando você deixou o Men’s Journal, estava claro para você que deveria apostar na Internet?
Com certeza, sim. Eu queria viver fora de Nova York e queria trabalhar com o futuro da Fotografia e da mídia, que é a Internet.

Vejo na Fotografia duas discussões diferentes. Uma é sobre a própria fotografia; linguagem, o digital, novas tecnologias, etc. A outra é sobre o mercado, que é o “como sobreviver”. Mesmo quando você fala de fotos é sob um olhar mercadológico. É proposital? O quanto é esse assunto é importante para você?
Sim, é claro que Fotografia é um negócio e da mesma forma o é publicar revistas. Os fotógrafos que buscamos podem ajudar a revista a se conectar a consumidores e anunciantes. Não é só fazer a matéria ou tirar fotos de um assunto que fortalecerão os negócios pela Fotografia.

Seu blog está sempre propondo comportamentos, discussões ou dando dicas para profissionais. Nós temos a idéia de que fotógrafos na América são bem preparados para lidar com o Mercado, diretores de arte, editores. Não é essa a realidade?
Eu acho que todos querem estar adiante na competição. Fotógrafos estão sempre procurando por um jeito melhor de se aproximar de clientes ou tentando aprender como podem trabalhar melhor com certas situações.
Ultimamente eu acho que isso importa muito pouco porque a fotos são tudo o que importa. Mas se você pensa o quanto é difícil se tornar um fotógrafo melhor e o quão fácil é comprar um protifólio colorido, você verá o porque da discussão sempre se voltar para “qual portifólio colorido eu devo comprar?”

A Entrevista da Premiada

25 de maio de 2008

A fotógrafa Mona Reeder ganhou o prêmio Robert F. Kennedy de jornalismo para Domestic Photojournalism com o ensaio “The Bottom Line”, feito para o Dallas Morning News.

É claro que tem um link para o trabalho aqui e na imagem, mas com tantas referências premiadas, acabamos achando que a realização de um trabalho simples está muito distante.

Temos que ver também, por exemplo, o trabalho do New York Times, sobre o pai que premiou o filho com a réplica de um Shelby 427 Cobra , para que ele melhorasse as notas na escola.

Diferente é que Mona Reeder dá uma entrevista a Kenny Irby, colunista do Poynteronline, onde fala como é sua aproximação dos personagem em ensaios fotográficos e como é improdutivo manter a distância entre o texto e a imagem.

Ela diz que The Bottom Line, pela sua apresentação multimídia, “incorpora o que os diretores de jornais têm procurado por anos, com a experiência de diminuição de leitores e o (novo) papel das notícias”.
Sobre conselhos para fotógrafos que decidem se tornar “visual reporters”, ela afirma:
“Esperar receber um grande trabalho (pauta) de uma chefia é um erro que muitos fotógrafos fazem. Alguns reclamam que nunca pegam um trabalho bom, mas em minha opinião, cada um faz sua própria sorte, cria sua própria oportunidade.
Se mais fotógrafos tomarem a iniciativa e responsabilidade por desenvolver suas histórias e idéias, eles talvez fiquem mais felizes”.
Leia aqui a entrevista.

O Piloto Renegado e seus Projetos Audaciosos

17 de abril de 2008

Quando trabalhei no Estadão, Hélio Campos Mello era diretor de Fotografia da Agência Estado, uma função nova no Brasil, sem a qual a Agência Estado não teria a força e o alcance que conquistou. Isso pode não dizer nada, mas para quem viveu bons momentos fez muita diferença.

Ele deu uma entrevista ao Fotosite. Eu tirei algumas partes para a gente.

Fotosite: Hélio você passou por uma grande parte da história do fotojornalismo. Qual a sua avaliação considerando que você viveu fases completamente diferentes?

Minha avaliação é meio mal humorada. Como eu gosto de corrida, vou fazer um paralelo. Aliás, não gosto mais de corridas. Corrida era muito legal porque era um desafio individual, o cara o tempo todo tinha que se concentrar para melhorar, porque os equipamentos eram precários. Hoje, os equipamentos são de uma auto-suficiência irritante, tem pouco da arte de pilotar. A fotografia também é um pouco disso, com relação a transição do analógico e digital, um pouco obviamente, não quero amargo demais, nem cretino. Mas de qualquer maneira hoje todo mundo fotografa, os equipamentos estão mais amigáveis. O equipamento está em função de inteligência, de olhar, então acho que o indivíduo se massificou, e acho que o indivíduo tem se especializar mais, ler, ver, pesquisar e pensar cada vez mais. (….) Hoje fazemos muitas fotos, isso é bom, mas perde um pouco da solenidade. Outro dia o Marcio Scavone me chamou para fazer um retrato no estúdio dele e tem solenidade, que vai te deixando mais propício para ser fotografado.

Fotosite: Considerando o que você já viu em exposições e em leituras de portfólio pelo Brasil, o que você já está cansado de ver?

É difícil falar sobre isso, porque com toda a experiência que eu tenho, para mim é muito mais fácil montar um portfólio, porque eu sei como funciona esse lado do balcão de olhar portfólio. Você olhar o potencial de uma pessoa por uma amostra de trabalho, é subjetivo. Vejo de uma maneira um pouco mais flexível. (…) A fotografia é um retrato do seu pensamento, ela tem que mostrar um pouco do pensamento e da personalidade da pessoa. A técnica não é fundamental, se um bom pensamento está retratado de maneira eficiente.

Fotosite: Nós publicamos uma notícia na FS Online que está causando muita polêmica, sobre uma fotógrafa que fez imagens do filho da Luciana Gimenez com o Mick Jagger na escola – ele estava com cinco anos na época – e publicou na revista Caras. A Luciana processou e a fotógrafa teve que indeniza-la em R$ 10,5 mil. Você concorda que os fotógrafos estão ultrapassando os limites para conseguir as fotos?

Eu concordo. Para quê? O que vai acrescentar? Eu lembro de uma pauta que foi feita a partir de uma informação que os repórteres trouxeram, de que o filho do Pitta (Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo) fumava maconha. So what? Porquê tem quer dar isso? Ele foi preso? Uma das coisas que mais gostei na Isto É foi uma matéria que pedi pra fazer sobre o João Carlos Martins, que era um pianista reconhecido como o maior interprete de Bach no mundo. Aí ele fez uma bobagem durante uma campanha do Maluf, notório canalha. Eu descobri que ele tinha uma história terrível, que além dessa bobagem com o Maluf, ele estava jogando futebol no Central Park, caiu em cima de uma pedra e danificou um tendão. Daí a mão direita parou de tocar, ficou só com a mão esquerda. Ele foi fazer um concerto não sei onde, agrediram o cara e a mão esquerda parou de funcionar. Aí foram fazer a matéria, queriam focar que ele era malufista. Eu falei “Tudo bem, ele é malufista, mas além de tudo ele é isso, isso e isso”. Então a imprensa tem essa história de linchar a priori, crucificar, ou seja, põe rótulo, um chapéu de palhaço, pendura um negócio no peito e põe o cara na rua pra ser linchado. Tive prazer de tentar modestamente, com uma revista como a Isto É, recolocar o cara em uma situação melhor. A gente tem esse negócio, porque a gente é imprensa, pode tudo. A gente pode invadir a casa dos outros e fotografar uma criança, pode meter a máquina na janela e ficar olhando. Não é uma coisa que eu gosto de fazer. Já me senti paparazzi uma vez e não gostei, tomei guarda-chuvada de porteiro de boate, mas é pessoal. Eu só acho que os valores deveriam ser um pouco mais equilibrados. Aquela coisa de “tudo pode pra se conseguir uma foto” – não é bem isso. A fotografia não é uma ideologia, é um trabalho, assim como jornalismo é um trabalho. O Cláudio Abramo que tem a grande frase: “É um trabalho de carpinteiro, tem que fazer as coisas direito, nada além disso”.

Fotosite: Você é um dos poucos fotógrafos que chegou a cargos dentro de uma redação que são tipicamente de jornalistas. Como isso aconteceu?

Foi indo naturalmente, mas com muita dor. Porque eu trabalhava com um cara muito chato, que era o Mino Carta, um chato de galocha.

Eu era tudo lá, editor de fotografia, fotógrafo, laboratorista. E o editar fotografia era sentar e paginar as matérias. Aí eu tinha as fotos, mas não sabia de que matéria que era, não tinha lido os textos. Tomava um esporro atrás do outro e fui ficando massacrado, até que tomei uma decisão estratégica, tática, inteligente, no meio daquela guerra, que foi conseguir uma cópia das matérias que chegavam via telex.
(…) Então eu lia as matérias e na hora de paginar eu sabia do que se tratava, dava para saber o que você estava fazendo. A partir daí eu comecei a ler a revista toda, lia tudo. Comecei a traduzir o The Economist e fechava. Outra coisa que me honra muito é que eu fechava também a coluna do Cláudio Abramo. E aí foi indo. Foi um pouco essa coisa de você como fotógrafo não ficar circunscrito pela estrutura do jornalismo, que te deixa ali a reboque. E pelo fato de você não conhecer só a sua engrenagem, você começa a entender o motor, e a interferir no motor.

Fotosite: Você acredita no Brasil?

Eu acredito, sim muito, mas tem que lutar, tem que defender as coisas. E são pequenas coisas, ou seja, desde as bobagens de você ser mais educado no trânsito, ser mais solidário com a pessoa que está do seu lado.

Fotosite: Fotografar ou escrever?

As duas coisas. Se bem que eu gosto um pouco mais de fotografar. Escrever é como música, tem a coisa do ritmo, fazer e refazer até chegar a algo que você acha legal.

Fotografar é algo mais social. Você tem que conhecer pessoas, lugares, se colocar de maneira eficiente, para não estragar eventos e cenas. Aí também tem aquele aspecto lúdico, de enquadrar aquele momento, esperar as coisas acontecerem, se antecipar, olhar por aquele visor…