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O Empreendedorismo Sem Crédito

5 de abril de 2010

Um fotógrafo que conheço abriu um processo contra uma empresa de empreendedorismo por ter publicado uma imagem de sua autoria, em um boletim, sem seu crédito. O trabalho – personagens de uma feira de empreendedores – havia sido encomendado por uma agência independente, fundada por outros fotógrafos, que tem a conta para prestação de serviços a essa empresa.

Os fotógrafos, donos da agência, souberam do processo pelo cliente. Não imaginavam que tal ocorrência fosse possível porque, como só eles produziam fotos para os boletins, concordavam que o crédito fosse dado unicamente à agência, no expediente.

Por lei, o crédito em textos, fotos e qualquer resultado de produção de cunho autoral, é obrigatório, desde 1998. (“googlei” um bom artigo sobre isso )

Os Dourados Anos 80

Quando eu comecei a trabalhar, final dos anos 80, a fotografia brasileira vivia um certo deslumbramento. Numa área institucional, o InFoto, da Funarte, estava sendo criado, depois de muitos anos de trabalho do Núcleo de Fotografia.

Em outra frente, a ARFOC-RJ atiçava lutas importantes para fotógrafos contratados e freelancers, com as bandeiras do crédito obrigatório e da tabela de preços mínimos. O fotojornalismo puxava  os dois trens, e outros ainda – tivemos até uma Bienal de Fotojornalismo, em 1994.

Atualmente não há luta que junte profissionais empregados e freelancers, a não ser para dividi-los mais ainda. Os interesses são totalmente distintos – as necessidades de adaptação às novidades do mercado são até semelhantes, com a diferença de que alguns sabem que precisam acompanhá-las e outros nem tomam conhecimento.

A Questão é o Mercado

Sobre créditos, aliás, leio e escuto várias críticas à Cia de Foto porque eles não assinam seus trabalhos individualmente. Eu acho que essas críticas normalmente beiram o pessoal e vêm de quem ficou preso lá nos anos dourados da fotografia.

Parece difícil entender que o que existe hoje é um problema de mercado.

Me lembro que na época em que a Cia de Foto começou havia entraves com clientes que faziam questão de um específico fotógrafo em certo trabalho. Não obstante seu direito de escolher, isso inibia a distribuição de trabalhos proposto por uma agência – ou coletivo, no caso deles. Me parecia que eles haviam resolvido isso, com o crédito unificado, tentando não personificar o que se tornara uma empresa, ou seja, tomaram uma solução de mercado.

Depois veio a história de coletivo, bem absorvida por eles, propondo inclusive outras reflexões.

A Luz de Cada Um

Não passou pela cabeça dos donos da agência citada no primeiro parágrafo virarem um coletivo e passarem a assinar “impessoalmente”. De forma própria, eles também tentam achar soluções para as questões que o mercado coloca para quem quer continuar a viver de fotografia neste país. Por isso batalham contratos e contas, contratam fotógrafos. Não dão prioridade aos amigos, a não ser que eles se encaixem nas demandas.

O reclamante (que está processando também outras 5 empresas por motivos semelhantes ou iguais) foi até eles, pediu trabalho, estava sem computador e lhe foi emprestado um laptop. Como era amigo de longa data, nem lhe pediram para assinar cessões de direito autoral (o que não tem nada a ver com o processo atual) pelos três trabalhos que fez.

A lei não permite dúvidas: a foto deve ter a indicação de quem é seu autor. Quem se sentir lesado neste direito, pode exigir reparação por danos morais. O reclamante abriu um processo que deve ter alcançado o valor da indenização média de cerca de R$ 10 mil. Soube que para retirar o processo ele aceita R$ 3 mil.

Para colocar com clareza o que está em jogo neste caso, o cliente talvez peça reparação na hora de renovar pela terceira vez o contrato com a empresa prestadora de serviços fotográficos.

Uma história cheia de falsas ingenuidades tem sempre algumas verdadeiras lições. Nosso romantismo ficou nos anos 80 e a forma de encarar os desafios para superar barreiras que sobem na nossa frente todos os dias tem que levar em conta a quem levar nessa jornada. Que tipo de comportamento e conhecimento queremos conosco.

Quando se fala das dificuldades que nosso mercado exige os temas são superação e inovação. Os que encaram a briga não podem apostar no último que sair que apague a luz. Temos que imaginar de quem pensa assim, talvez seja porque a luz própria até já se apagou; e ele nem percebeu.

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O otimismo das lideranças que transformam

26 de março de 2010

Como todos sabem, o mercado de fotografia não é o mesmo de 5 anos atrás. De tantas transformações talvez já não seja o mesmo da semana passada. Indiferente à melhora quantitativa de oferta de trabalho – que alguns amigos confirmam – a fotografia vai, como todos imaginam, continuar se transformando.

Para melhor.

Pelo menos no fotojornalismo.

Não posso acreditar no que eu mesmo escrevo, mas quem acha isso tem motivos, como Brian Storm, citado no último post. Na mesma publicação da Nieman Foundation de onde pincei Storm, outros não se deixam abater pela pobreza do mercado editorial e procuram suas próprias saídas, em combinações heterodoxas e propostas que se pretendem inovadoras.

No artigo intitulado What Crisis?, Stephen Mayes, diretor da agência VII, usa bordões empreendedorísticos (“Now its the time for reinvention”) para dar adeus ao estilo editorial que, assegura, não lhe fará falta, promotor de trabalhos mal pagos, anunciantes superfaturados e limitado e restrito conteúdo. “Foi-se nossa antiga dependência da poderosa elite que controlava a imensa infra-estrutura de produção e distribuição de impressos”.

Eu devo ter ouvido algo parecido em uma manifestação do PT Jovem esta semana, mas Mayes não parece se alinhar tampouco ao chavismo. Ele está mesmo construindo um perfil de negócio rentável para enfrentar o desafio de se viver de fotografia nos dias de hoje, afirmando que a agência que reúne alguns dos profissionais mais renomados do universo jornalístico está na transição de uma “mera fornecedora para ser uma produtora e avançando para atuar como sua própria publisher”.

“Não se trata de encontrar novas formas de se fazer velhas coisas, mas de radicalmente repensar nosso modelo de negócio”. São questões que valem a pena de serem refletidas. Quem sabe ele seja o convidado internacional da próxima edição de uma das semanas de fotografia que pululam pelo Brasil.

Afinal, por aqui a falta de um fórum para se discutir questões relativas ao mercado é total. O incentivo para se aplicar novas alternativas ao mercado é zero, com a grande ausência de profissionais que, mesmo em posições privilegiadas – como editores de fotografia em redações ou diretores de empresas que trabalham com imagens – não se interessam em promover inovações no seu próprio mercado.

Talvez não se trate mais do cara que vai bater pé pela publicação de uma específica imagem, ou de “escanear” portais em busca de uma “foto diferente”, embora a participação nestes estágios ainda seja importante e os sistemas de trabalho serem bem organizados para dar conta dessas tarefas.

Trata-se de gestão. Da  compreensão do caminho que nossa profissão toma; de observar como realmente se constrói uma parceria; ter a clareza de que arrochar valores dá satisfação à empresa, mas a médio prazo faz submergir talentos e atraí semi-profissionais de temporada limitada.

Ainda não ouvi falar de editores de fotografia que tenham se aposentado no cargo (acho que o Kadão, da Zero Hora, vai ser o primeiro, seguido pelos 3 que ainda têm este cargo na Abril). Isso quer dizer que a grande maioria dos que hoje têm este privilégio, provavelmente sentirão em algum momento o que estão construindo para o mercado. E essa é uma questão: em 5 anos vamos estar produzindo o quê, e de que forma.

Enquanto aqui se sofre com a ausência de liderança entre os que tem estrutura para transformar, o documento da Nieman Foundation apresenta vários – com ressalva aos propõem uma diversificação exagerada e um ritmo possível aos 20 e poucos anos – além de Mayes, que define o seu melhor produto oferecido ao mercado: integridade; a credibilidade dos fotógrafos da VII.

Morre o Jornalista, o Texto Sobrevive

3 de fevereiro de 2010

Recebi um e-mail com a tradução da palestra que o jornalista argentino Tomás Eloy Martínez proferiu em 2007, na conferência da Sociedade Interamericana de Imprensa. O texto foi publicado pelo blog Profissão:Repórter, de Luiz Maklouf Carvalho, hoje escrevendo para a revista Piauí.

O motivo da mensagem com o texto por parte do meu ex-chefe foi a morte, por câncer, de Martínez, no dia 31 de janeiro, em Buenos Aires, para onde retornou depois de longa temporada nos EUA. Era professor e colunista de La Nación, The New York Times e El País. Saiba mais sobre ele aqui .

Sob o título de CRÔNICA E REPORTAGEM: EM BUSCA DE UM JORNALISMO PARA O SÉCULO 21 , sua palestra entrelaça as linguagens literária e jornalística firmando-as como estruturais para desenvolvimento de um jornalismo atraente, em tempos de informações a rodo. “A maioria dos habitantes desta infinita aldeia em que se converteu o mundo vê primeiro as notícias pela televisão ou pela Internet, ou a escuta pelo rádio, antes de lê-la nos jornais, se é que acaso as lêem. Quando um jornal vende menos não é porque a televisão ou a Internet lhe venceram, mas sim porque o modo como os jornais dão a notícia é menos atraente. E não tem por que ser assim”, diz ele.

Além de projetar as necessidades e fazer suas observações sobre como o jornalismo deve evoluir nos próximos anos, Martinez ressaltou também o trabalho jornalístico, como uma profissão de fé: “De todas as vocações do homem, o jornalismo é aquela em que há menos lugar para as verdades absolutas. A chama sagrada do jornalismo é a dúvida, a verificação dos dados, a interrogação constante. Ali onde os documentos parecem instalar uma certeza, o jornalista instala sempre uma pergunta. Perguntar, indagar, conhecer, duvidar, confirmar cem vezes antes de informar: estes são os verbos capitais da profissão mais arriscada e mais apaixonante do mundo”.

Bom para quem quer relembrar, muito bom para quem, quer iniciar.

Leia-o na íntegra no blog do Maklouf, ou baixe o .doc abaixo:

CRÔNICA E REPORTAGEM

NYT Aplica o Manual e Tira Ensaio do Ar

13 de julho de 2009

Bastou Michele McNally citar o manual de ética do New York Times (ver post anterior) para logo ter onde aplicá-lo.

Depois de ter a confirmação de que um trabalho encomendado ao fotógrafo português Edgar Martins continha fotos com “alterações digitais, aparentemente por razões estéticas” , como diz a nota do editor do NYT, o jornal tirou-as de seu site.

Quem tem a versão impressa da The Times Magazine On Sunday do dia 05/07 ainda poderá ver o ensaio sobre grandes projetos arquitetônicos abandonados por causa crise, que Martins produziu em 21 dias de viagem pelos EUA.

Embora alguns sites citem declarações de Martins afirmando que não interfere em fotos, para o jornal português Público ele disse que o problema foi do “NYT ter vendido a história como vendeu”; reafirma não haver manipulado imagens, mas acrescenta: “sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo. Eu não fui para observar, fui para comentar”.

Em seu papel, Martins tenta justificar uma suposta travessura com um desafio que não é novo. Mexer em fotografias documentais se tornou aceitável em diversos níveis. Muitos profissionais acham natural por não haver um limite estabelecido e, lembremos, não obstante o problema tenha ocorrido numa revista, não no jornal. Para muitos isso é uma grande diferença. Por quê?

Por um certo tempo a Folha de S. Paulo parecia estimular fotógrafos a transformarem suas imagens, sem indicar a artimanha ao leitor. Arte e Fotografia sentavam na mesma mesa.

O NYT, entretanto, aplicou seu manual. E poderia ser diferente? Na catalogação do que é permitido ou não de imagens jornalísticas, eles assumem que “imagens em nossas páginas, em papel ou na web, que pretendem retratar a realidade, devem ser verdadeiras em todos os sentidos”.

E essa orientação, de tão óbvia, não me parece ser diferente de outros jornais no mundo.

Seria como ser multado em outro país e argumentar que na sua cidade uma placa com bordas vermelhas e um 100 escrito no centro não significa o limite de velocidade.

Nessa conversa de que a fotografia jornalística mudou e existem interpretações do real, os limites não se alargam, são degradados; porque documentação é uma linguagem flexível mas não pode ser alterada criativamente para se tornar outra.

O NYT quer proteger sua cara legitimidade porque é disso que ele vive e se essa intransigência não for apliacada, vira festa do caquí . Os jornais daqui também vivem disso, mas às vezes dão sua interpretação livre. Por isso que por mais que se tenha boa vontade, tem jornal que se lê e ainda fica a dúvida se o que está escrito é verdade.

O fato interessante do caso foi que o descobridor da manipulação das imagens, segundo o Público, foi Adam Gurno, um leitor. Sobrou para Edgar Martins.

Código de Ética do New York Times

7 de julho de 2009

Essa é uma tradução da parte do manual de ética do NYT, citado pela editora gerencial assistente de Fotografia, Michele McNally, na seção Talk to the Newsroom.

Mais precisamente, é o capítulo Photography and Images section of The New York Times Company Policy on Ethics in Journalism.

Para quem preferir, o texto original está no link acima, láááá embaixo. Mas vale se deter em outros assuntos tratados por ela, que são parecidos com os nossos, mas bastante diferentes.

Imagens em nossas páginas, em papel ou na web, que pretendem retratar a realidade, devem ser verdadeiras em todos os sentidos. Nenhuma pessoa ou objeto podem ser adicionados, rearranjos, invertidos, distorcidos ou removidos de uma cena (exceto para a reconhecida prática do corte para omitir porções externas estranhas). Ajustes de cor ou escala de cinza deve ser limitada às minimamente necessárias para a clara e precisa reprodução, análogas à “queima” e “proteção” praticados no processamento de imagens na antiga câmara escura. Fotos de notícias não devem ser posadas.

Em algumas seções e nas revistas, sempre que uma fotografia for utilizada para os mesmos fins de um desenho ou pintura – como na ilustração de uma idéia ou situação, ou como uma demonstração de como um dispositivo funciona, etc – deve ser sempre claramente identificada como uma foto ilustração. Isto não se aplica aos retratos ou still (fotos de alimentos, calçados, etc), mas se aplica a outros tipos de fotos em que pessoas ou coisas foram artificialmente arranjadas, bem como para colagens, montagens, e fotografias que tenham sido alteradas digitalmente.

Obrigatoriamente, em todos os casos como estes, uma linha com o crédito de imagem começa com “foto ilustração”. Ocasionalmente, uma explicação sobre a legenda pode ser aconselhável.

Fotografias alteradas ou com cenas criadas são um dispositivo que não deve ser usado além do razoável. Tirar fotografias de pessoas reais não identificadas como ilustrações de uma situação genérica (como usar um editor ou outro modelo numa pose desanimada para representar executivos demitidos), geralmente acaba por ser uma má idéia.

Se você tiver alguma pergunta sobre a conveniência de uma alteração ou não tem certeza sobre a melhor forma de tornar claro para o leitor que a imagem foi manipulada ou a cena criada, consulte o diretor de fotografia, editor das normas (manual de redação), diretor de arte, ou o News Desk (mas antes de postar na web ou da prova final de uma página impressa, para evitar divergências de última hora e insatisfatórias soluções improvisadas).


A Prática de Cada Um, ou Dois

22 de janeiro de 2008

creditos.jpg

Aconteceu no final do ano passado; depois de alguma repercussão o Ombudsman da Folha publicou um artigo dia 13 de janeiro. Eu só estou falando agora da cobertura do incêndio do HC, que revelou uma prática anti-ética e lamentável depois que as mesmas fotos foram publicadas com créditos diferentes em jornais de São Paulo. Mas tenho que registrar.

Ainda há dúvidas se houve apropriação indébita, mas a crítica ao troca-troca não deve ser atribuída apenas a um “profissional”. Tem aquele que concedeu a oportunidade.

Isso foi comum no passado, travestida de ingenuidade e colegismo. Em um show do Rock in Rio uma fotógrafa teve problemas no equipamento e não fez nenhuma foto. Um colega cedeu alguns negativos (isso tem muitos anos). Meses depois a foto publicada com o crédito da fotógrafa foi inscrita em um concurso, exposta e ganhou um prêmio. Não sei se houve algum repasse ao real autor, que hoje em dia se ocupa de barcos e passeios turísticos.

Essa é apenas uma entre muitas histórias, mas desde que nossa profissão se tornou espaço aberto a franco-atiradores, a vigilância teve que ser mais acirrada. Bom trabalho da ARFOC-SP.

O melhor link é ler o que saiu publicado no Granulado, mais antenado e rápido no gatilho.

Uma Nova Versão

21 de setembro de 2007

Foi publicada esta semana a nova redação do código de ética do jornalista, três anos após iniciada a discussão. Os cinqüenta itens, dezenove artigos e quatro parágrafos distribuídos por cinco capítulos foram compilados no congresso extraordinário realizado em agosto, depois de consultas a um monte de gente. Este longo documento reflete a participação do conglomerado: entre artigos com títulos de manuais (É Dever do Jornalista – O Jornalista Não Pode – O Jornalista Deve – O Jornalista Não Deve), alguns itens tratam de boas maneiras (“O jornalista deve manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho”) ou de direitos civis (“É dever do jornalista defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”).

Digamos que é sempre bom lembrar bons valores em uma sociedade que convive com maus exemplos diariamente, mas existem condutas universais, que não são exclusivas de jornalistas. Ficou um pouco redundante, mas o documento é uma referência importante.

Diferente da versão anterior, há uma clara referência à fotografia e ao vídeo, no artigo 12: “O jornalista deve rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade (sic), sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações”. Ainda é amplo. Há alguns meses a Associação Americana de Fotógrafos Profissionais (NPPA) também incluiu a manipulação de imagens em um novo código de ética, por conta das novas tecnologias. É outra referência para profissionais.

Entretanto, para os que não quiserem adotar nenhum dos dois, as punições não têm a menor importância (aqui, eles seriam excluídos do sindicato), até porque para esses, não há manual que os guie.