Posts Tagged ‘Jornalismo’

A Ameaça Esquecida e a Foto que Ficou

8 de julho de 2010

Quando entrei  na Folha de S.Paulo o assunto da redação era produzir matérias mais curtas e textos concisos. O mais recente projeto do jornal demonstra que isso ainda é uma obsessão, que se fosse realmente possível  hoje estaríamos lendo páginas de pequenas notas, como está sendo na internet.

Há um tempo, aliás, a internet seria o lugar onde os artigos mais longos poderiam ser publicados – “Leia o artigo completo no www…e tal”. Mas o que tem cara de web são as revistas que colocam um monte de notas e pequenos artigos. A experiência na rede continua e está difícil de entender o meio.

Um amigo comentou que o que faltava na internet no Brasil era um Victor Civita, que transformou o mercado editorial nos anos 60. Não sou capaz de concordar ou discordar, mas, sim, falta alguma coisa atraente no jornalismo da internet brasileira.

Me lembrei da foto que fiz dele ainda na Folha.

Naquele tempo a fotografia do jornal era comandada por Luiz Caversan, que junto a David Zingg promovia uma experiência de convidar fotógrafos de fora do jornalismo a trabalharem na redação, elevando a dose de estética na mistura fotografia-informação.

Tudo era novidade. Era um sucesso.

Aí, um dia me passaram a pauta para fotografar o Victor Civita, que eu só sabia ser ele o dono da Abril, mas quando a gente é mais novo e sabe pouco de personalidades, acaba sendo meio irresponsável. É a ignorância a nosso favor.

Usei o tempo todo um cabinho para tirar o flash da câmera, que era tão curto que eu mal conseguia esticar o braço. Provavelmente meu modelo, que devia saber tudo sobre como fazer uma reportagem, uma revista e uma editora, previu a imagem que estava sendo feita, e lá pelo terceiro lugar que eu pedi para ele ficar começou a dizer entre os dentes: “você vai me pagar”.

Estávamos sozinhos (não havia testemunha) e ele parecia simpático, continuava sorrindo e falei que seria um massacre ele fazer isso comigo, afinal, ele era dono da Abril e eu, um iniciante. “Eu vou acabar com você”, continuava ele, rangendo entre os dentes sorridentes.

Não me lembro se ele se despediu de mim ou se fui posto pra fora da sala, mas acho que ele desistiu da vingança.

Ainda bem.

Sobre a internet… sim, acho que ele tomaria uma providência.

O otimismo das lideranças que transformam

26 de março de 2010

Como todos sabem, o mercado de fotografia não é o mesmo de 5 anos atrás. De tantas transformações talvez já não seja o mesmo da semana passada. Indiferente à melhora quantitativa de oferta de trabalho – que alguns amigos confirmam – a fotografia vai, como todos imaginam, continuar se transformando.

Para melhor.

Pelo menos no fotojornalismo.

Não posso acreditar no que eu mesmo escrevo, mas quem acha isso tem motivos, como Brian Storm, citado no último post. Na mesma publicação da Nieman Foundation de onde pincei Storm, outros não se deixam abater pela pobreza do mercado editorial e procuram suas próprias saídas, em combinações heterodoxas e propostas que se pretendem inovadoras.

No artigo intitulado What Crisis?, Stephen Mayes, diretor da agência VII, usa bordões empreendedorísticos (“Now its the time for reinvention”) para dar adeus ao estilo editorial que, assegura, não lhe fará falta, promotor de trabalhos mal pagos, anunciantes superfaturados e limitado e restrito conteúdo. “Foi-se nossa antiga dependência da poderosa elite que controlava a imensa infra-estrutura de produção e distribuição de impressos”.

Eu devo ter ouvido algo parecido em uma manifestação do PT Jovem esta semana, mas Mayes não parece se alinhar tampouco ao chavismo. Ele está mesmo construindo um perfil de negócio rentável para enfrentar o desafio de se viver de fotografia nos dias de hoje, afirmando que a agência que reúne alguns dos profissionais mais renomados do universo jornalístico está na transição de uma “mera fornecedora para ser uma produtora e avançando para atuar como sua própria publisher”.

“Não se trata de encontrar novas formas de se fazer velhas coisas, mas de radicalmente repensar nosso modelo de negócio”. São questões que valem a pena de serem refletidas. Quem sabe ele seja o convidado internacional da próxima edição de uma das semanas de fotografia que pululam pelo Brasil.

Afinal, por aqui a falta de um fórum para se discutir questões relativas ao mercado é total. O incentivo para se aplicar novas alternativas ao mercado é zero, com a grande ausência de profissionais que, mesmo em posições privilegiadas – como editores de fotografia em redações ou diretores de empresas que trabalham com imagens – não se interessam em promover inovações no seu próprio mercado.

Talvez não se trate mais do cara que vai bater pé pela publicação de uma específica imagem, ou de “escanear” portais em busca de uma “foto diferente”, embora a participação nestes estágios ainda seja importante e os sistemas de trabalho serem bem organizados para dar conta dessas tarefas.

Trata-se de gestão. Da  compreensão do caminho que nossa profissão toma; de observar como realmente se constrói uma parceria; ter a clareza de que arrochar valores dá satisfação à empresa, mas a médio prazo faz submergir talentos e atraí semi-profissionais de temporada limitada.

Ainda não ouvi falar de editores de fotografia que tenham se aposentado no cargo (acho que o Kadão, da Zero Hora, vai ser o primeiro, seguido pelos 3 que ainda têm este cargo na Abril). Isso quer dizer que a grande maioria dos que hoje têm este privilégio, provavelmente sentirão em algum momento o que estão construindo para o mercado. E essa é uma questão: em 5 anos vamos estar produzindo o quê, e de que forma.

Enquanto aqui se sofre com a ausência de liderança entre os que tem estrutura para transformar, o documento da Nieman Foundation apresenta vários – com ressalva aos propõem uma diversificação exagerada e um ritmo possível aos 20 e poucos anos – além de Mayes, que define o seu melhor produto oferecido ao mercado: integridade; a credibilidade dos fotógrafos da VII.

Morre o Jornalista, o Texto Sobrevive

3 de fevereiro de 2010

Recebi um e-mail com a tradução da palestra que o jornalista argentino Tomás Eloy Martínez proferiu em 2007, na conferência da Sociedade Interamericana de Imprensa. O texto foi publicado pelo blog Profissão:Repórter, de Luiz Maklouf Carvalho, hoje escrevendo para a revista Piauí.

O motivo da mensagem com o texto por parte do meu ex-chefe foi a morte, por câncer, de Martínez, no dia 31 de janeiro, em Buenos Aires, para onde retornou depois de longa temporada nos EUA. Era professor e colunista de La Nación, The New York Times e El País. Saiba mais sobre ele aqui .

Sob o título de CRÔNICA E REPORTAGEM: EM BUSCA DE UM JORNALISMO PARA O SÉCULO 21 , sua palestra entrelaça as linguagens literária e jornalística firmando-as como estruturais para desenvolvimento de um jornalismo atraente, em tempos de informações a rodo. “A maioria dos habitantes desta infinita aldeia em que se converteu o mundo vê primeiro as notícias pela televisão ou pela Internet, ou a escuta pelo rádio, antes de lê-la nos jornais, se é que acaso as lêem. Quando um jornal vende menos não é porque a televisão ou a Internet lhe venceram, mas sim porque o modo como os jornais dão a notícia é menos atraente. E não tem por que ser assim”, diz ele.

Além de projetar as necessidades e fazer suas observações sobre como o jornalismo deve evoluir nos próximos anos, Martinez ressaltou também o trabalho jornalístico, como uma profissão de fé: “De todas as vocações do homem, o jornalismo é aquela em que há menos lugar para as verdades absolutas. A chama sagrada do jornalismo é a dúvida, a verificação dos dados, a interrogação constante. Ali onde os documentos parecem instalar uma certeza, o jornalista instala sempre uma pergunta. Perguntar, indagar, conhecer, duvidar, confirmar cem vezes antes de informar: estes são os verbos capitais da profissão mais arriscada e mais apaixonante do mundo”.

Bom para quem quer relembrar, muito bom para quem, quer iniciar.

Leia-o na íntegra no blog do Maklouf, ou baixe o .doc abaixo:

CRÔNICA E REPORTAGEM

NYT Aplica o Manual e Tira Ensaio do Ar

13 de julho de 2009

Bastou Michele McNally citar o manual de ética do New York Times (ver post anterior) para logo ter onde aplicá-lo.

Depois de ter a confirmação de que um trabalho encomendado ao fotógrafo português Edgar Martins continha fotos com “alterações digitais, aparentemente por razões estéticas” , como diz a nota do editor do NYT, o jornal tirou-as de seu site.

Quem tem a versão impressa da The Times Magazine On Sunday do dia 05/07 ainda poderá ver o ensaio sobre grandes projetos arquitetônicos abandonados por causa crise, que Martins produziu em 21 dias de viagem pelos EUA.

Embora alguns sites citem declarações de Martins afirmando que não interfere em fotos, para o jornal português Público ele disse que o problema foi do “NYT ter vendido a história como vendeu”; reafirma não haver manipulado imagens, mas acrescenta: “sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo. Eu não fui para observar, fui para comentar”.

Em seu papel, Martins tenta justificar uma suposta travessura com um desafio que não é novo. Mexer em fotografias documentais se tornou aceitável em diversos níveis. Muitos profissionais acham natural por não haver um limite estabelecido e, lembremos, não obstante o problema tenha ocorrido numa revista, não no jornal. Para muitos isso é uma grande diferença. Por quê?

Por um certo tempo a Folha de S. Paulo parecia estimular fotógrafos a transformarem suas imagens, sem indicar a artimanha ao leitor. Arte e Fotografia sentavam na mesma mesa.

O NYT, entretanto, aplicou seu manual. E poderia ser diferente? Na catalogação do que é permitido ou não de imagens jornalísticas, eles assumem que “imagens em nossas páginas, em papel ou na web, que pretendem retratar a realidade, devem ser verdadeiras em todos os sentidos”.

E essa orientação, de tão óbvia, não me parece ser diferente de outros jornais no mundo.

Seria como ser multado em outro país e argumentar que na sua cidade uma placa com bordas vermelhas e um 100 escrito no centro não significa o limite de velocidade.

Nessa conversa de que a fotografia jornalística mudou e existem interpretações do real, os limites não se alargam, são degradados; porque documentação é uma linguagem flexível mas não pode ser alterada criativamente para se tornar outra.

O NYT quer proteger sua cara legitimidade porque é disso que ele vive e se essa intransigência não for apliacada, vira festa do caquí . Os jornais daqui também vivem disso, mas às vezes dão sua interpretação livre. Por isso que por mais que se tenha boa vontade, tem jornal que se lê e ainda fica a dúvida se o que está escrito é verdade.

O fato interessante do caso foi que o descobridor da manipulação das imagens, segundo o Público, foi Adam Gurno, um leitor. Sobrou para Edgar Martins.

A História Eletrônica de Uma Eleição

9 de novembro de 2008

O Picturapixel – nossos “sócios” – já publicou.

Para quem gosta e acredita em multimídia. Para quem quer saber a história resumida da campanha de Barak Obama à presidência dos EUA (link na imagem).

nyt3

Tá certo que vem do The New York Times, que quer ser integralmente um jornal na internet e para isso aposta alto. Mas quem quiser contar histórias com a ajuda de novas mídias, tem que começar a produzi-los.

Ricardo Gandour deveria assistí-los.

Receita de Bolo Antiga. Gosto de Mídia Nova

6 de novembro de 2008

A eleição de Barak Obama nos EUA nos coloca diante da nova ordem geopolítica mundial do século 21. Como testemunhas históricas, de madrugada assistimos a tudo através das mais diversas mídias disponíveis. Não falamos apenas da internet, mas também da tv, do rádio, dos impressos, que, contrariando as previsões – que em todos os tempos previam o definhamento das mídias estabelecidas em razão das inovações tecnológicas – souberam se reinventar e não sucumbiram como se era esperado.

Nos nossos dias, a internet é a devoradora de meios, responsável por tudo o que há de bom e de ruim para ser consumido, dominando a audiência fascinada por espelhos, perfumes, iguarias e banners piscando.
Aqui precisamos chamar um analista mais sério para decifrar esse momento, que é o do estabelecimento de uma nova midia.

Num café da manhã para jornalistas e profissionais ligados à comunicação corporativa, Ricardo Gandour, Diretor de Conteúdo do Grupo Estado, fez observações sobre como o amadurecimento da internet como meio de comunicação está se dando.

As preocupações de Gandour não são novas na imprensa. Dizem respeito à qualidade e credibilidade de conteúdo na web, em contraponto à ameaçadora ausência de critérios para publicar notícias na rede. Pode-se “ler” em letras miúdas uma crítica ao estilo blogueiro de vida – embora ele a negue.
Em suas comparações entre o produto que é feito para o jornal impresso e para o portal do Estadão, ele enfatiza que as cobranças são exatamente as mesmas: “Não existe o jornalismo mais responsável e o menos responsável; importa o bom jornalismo. Não tratamos a internet como um ambiente menos compromissado”.

Para Gandour, o encantamento inicial que se tem com novas mídias vem do vislumbre das possibilidades que els apresentam como inovação. Aí, sua aceitação para consumo por parte do usuário é testada sensorialmente e, depois, adquiri estabilidade, com a inclusão de valores da sociedade ao seu conteúdo.
Daqui seguimos com a mensagem principal de Gandour para sua audiência matinal: a idade eletrônica da razão está chegando com uma preocupação para com estes valores.
Podemos pensar que não poderia ser diferente para o diretor do grupo jornalístico que tem demasiados valores em seu DNA, mas Gandour distribui suas críticas ao próprio mainstream, que segundo ele passou um tempo desaprendendo como se faz jornalismo; abriu mão de conceitos jornalísticos e também de valores sociais e individuais. Ele acha que isso está sendo reconstruído e estes clássicos conceitos e valores estão sendo recuperados para o estabelecimento de uma nova era na comunicação.

O que parece estar deslocado de contexto é quando ele faz interessantes analogias de rádio-escuta com captura robotizada de notas de sites; da edição de imagens de tv distribuídas por agências com o extinto telex; e fala da recuperação da diagramação atribuindo importância a assuntos no site, em detrimento de blocos padronizados com “empilhamento” de chamadas (nesse momento, não por acaso, ele acessa o UOL).
Mas tudo tem a ver no raciocínio do engenheiro que se formou jornalista e estudou em Stanford. Para manter o crescimento do portal, que ano passado tinha 18 milhões de acesso ao mês e em outubro deste ano alcançou a marca de 94 milhões de visitas, ele promove uma gestão de talentos para o exercício da edição, que é escolher e decidir, como sempre foi, para o jornal impresso e para a internet.

Não é só por um áudio, nem por um vídeo no ar. Tem o conjunto, as decisões na reunião de pauta da manhã e nossas escolhas na edição”.

E como formar o reportariado para a missão multimidiática? Para ele, a imagem do repórter com bloco, gravador, câmera e capacete com filmadora está superada. Lá eles formam profissionais, contratam editores, têm um estúdio de tv na redação, estações de edição….putz, será que ainda cabe mais gente naquele prédio da Marginal?

Esse não parece ser um problema para Gandour, que defende estar a saúde financeira de uma empresa jornalística diretamente ligada à sua autonomia. O problema é que para se trabalhar bem é necessário formar o profissional, que “precisa ler mais, estudar mais, se especializar. E isso tem custo“.

É o custo de um bom conteúdo.

A Entrevista da Premiada

25 de maio de 2008

A fotógrafa Mona Reeder ganhou o prêmio Robert F. Kennedy de jornalismo para Domestic Photojournalism com o ensaio “The Bottom Line”, feito para o Dallas Morning News.

É claro que tem um link para o trabalho aqui e na imagem, mas com tantas referências premiadas, acabamos achando que a realização de um trabalho simples está muito distante.

Temos que ver também, por exemplo, o trabalho do New York Times, sobre o pai que premiou o filho com a réplica de um Shelby 427 Cobra , para que ele melhorasse as notas na escola.

Diferente é que Mona Reeder dá uma entrevista a Kenny Irby, colunista do Poynteronline, onde fala como é sua aproximação dos personagem em ensaios fotográficos e como é improdutivo manter a distância entre o texto e a imagem.

Ela diz que The Bottom Line, pela sua apresentação multimídia, “incorpora o que os diretores de jornais têm procurado por anos, com a experiência de diminuição de leitores e o (novo) papel das notícias”.
Sobre conselhos para fotógrafos que decidem se tornar “visual reporters”, ela afirma:
“Esperar receber um grande trabalho (pauta) de uma chefia é um erro que muitos fotógrafos fazem. Alguns reclamam que nunca pegam um trabalho bom, mas em minha opinião, cada um faz sua própria sorte, cria sua própria oportunidade.
Se mais fotógrafos tomarem a iniciativa e responsabilidade por desenvolver suas histórias e idéias, eles talvez fiquem mais felizes”.
Leia aqui a entrevista.

Casa de Ferreiro, Espeto de Ferro

14 de maio de 2008

Mais um produto feito pelo e-SIM, dessa vez encomendado pelo Diário do Comércio.

Bem, na verdade, quando fomos pautados para fazer matéria na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos já imaginamos que daria para fazer um áudio slideshow. Aí, nos propusemos a fazê-lo já pela manhã.

Acontece que por diversos motivos fomos obrigados a começar a edição de som e montagem somente às 19 horas. O trabalho atrasou mas o entregamos às 23 horas. Às 23:40 ele já estava no ar. A matéria da edição impressa saiu no dia seguinte.

Ainda não havíamos feito um áudio slideshow para o mesmo dia. O som direto também andava sumido. Mas nesta produção o que funcionou mesmo foi a colaboração de Leonardo Rodrigues e Maristela Orlowski, que mesmo sem terem feito esse tipo de apuração antes, capturaram um bom material para a edição.

Além do mais, tem o importante detalhe dele não ser uma peça muito diferente do que saiu no jornal impresso. São duas linguagens e duas produções, mas abordam o assunto sob os mesmos pontos de vista.

Não dá para dizer que foi fácil, mas vamos indo. Veja aqui um breve histórico.

O Piloto Renegado e seus Projetos Audaciosos

17 de abril de 2008

Quando trabalhei no Estadão, Hélio Campos Mello era diretor de Fotografia da Agência Estado, uma função nova no Brasil, sem a qual a Agência Estado não teria a força e o alcance que conquistou. Isso pode não dizer nada, mas para quem viveu bons momentos fez muita diferença.

Ele deu uma entrevista ao Fotosite. Eu tirei algumas partes para a gente.

Fotosite: Hélio você passou por uma grande parte da história do fotojornalismo. Qual a sua avaliação considerando que você viveu fases completamente diferentes?

Minha avaliação é meio mal humorada. Como eu gosto de corrida, vou fazer um paralelo. Aliás, não gosto mais de corridas. Corrida era muito legal porque era um desafio individual, o cara o tempo todo tinha que se concentrar para melhorar, porque os equipamentos eram precários. Hoje, os equipamentos são de uma auto-suficiência irritante, tem pouco da arte de pilotar. A fotografia também é um pouco disso, com relação a transição do analógico e digital, um pouco obviamente, não quero amargo demais, nem cretino. Mas de qualquer maneira hoje todo mundo fotografa, os equipamentos estão mais amigáveis. O equipamento está em função de inteligência, de olhar, então acho que o indivíduo se massificou, e acho que o indivíduo tem se especializar mais, ler, ver, pesquisar e pensar cada vez mais. (….) Hoje fazemos muitas fotos, isso é bom, mas perde um pouco da solenidade. Outro dia o Marcio Scavone me chamou para fazer um retrato no estúdio dele e tem solenidade, que vai te deixando mais propício para ser fotografado.

Fotosite: Considerando o que você já viu em exposições e em leituras de portfólio pelo Brasil, o que você já está cansado de ver?

É difícil falar sobre isso, porque com toda a experiência que eu tenho, para mim é muito mais fácil montar um portfólio, porque eu sei como funciona esse lado do balcão de olhar portfólio. Você olhar o potencial de uma pessoa por uma amostra de trabalho, é subjetivo. Vejo de uma maneira um pouco mais flexível. (…) A fotografia é um retrato do seu pensamento, ela tem que mostrar um pouco do pensamento e da personalidade da pessoa. A técnica não é fundamental, se um bom pensamento está retratado de maneira eficiente.

Fotosite: Nós publicamos uma notícia na FS Online que está causando muita polêmica, sobre uma fotógrafa que fez imagens do filho da Luciana Gimenez com o Mick Jagger na escola – ele estava com cinco anos na época – e publicou na revista Caras. A Luciana processou e a fotógrafa teve que indeniza-la em R$ 10,5 mil. Você concorda que os fotógrafos estão ultrapassando os limites para conseguir as fotos?

Eu concordo. Para quê? O que vai acrescentar? Eu lembro de uma pauta que foi feita a partir de uma informação que os repórteres trouxeram, de que o filho do Pitta (Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo) fumava maconha. So what? Porquê tem quer dar isso? Ele foi preso? Uma das coisas que mais gostei na Isto É foi uma matéria que pedi pra fazer sobre o João Carlos Martins, que era um pianista reconhecido como o maior interprete de Bach no mundo. Aí ele fez uma bobagem durante uma campanha do Maluf, notório canalha. Eu descobri que ele tinha uma história terrível, que além dessa bobagem com o Maluf, ele estava jogando futebol no Central Park, caiu em cima de uma pedra e danificou um tendão. Daí a mão direita parou de tocar, ficou só com a mão esquerda. Ele foi fazer um concerto não sei onde, agrediram o cara e a mão esquerda parou de funcionar. Aí foram fazer a matéria, queriam focar que ele era malufista. Eu falei “Tudo bem, ele é malufista, mas além de tudo ele é isso, isso e isso”. Então a imprensa tem essa história de linchar a priori, crucificar, ou seja, põe rótulo, um chapéu de palhaço, pendura um negócio no peito e põe o cara na rua pra ser linchado. Tive prazer de tentar modestamente, com uma revista como a Isto É, recolocar o cara em uma situação melhor. A gente tem esse negócio, porque a gente é imprensa, pode tudo. A gente pode invadir a casa dos outros e fotografar uma criança, pode meter a máquina na janela e ficar olhando. Não é uma coisa que eu gosto de fazer. Já me senti paparazzi uma vez e não gostei, tomei guarda-chuvada de porteiro de boate, mas é pessoal. Eu só acho que os valores deveriam ser um pouco mais equilibrados. Aquela coisa de “tudo pode pra se conseguir uma foto” – não é bem isso. A fotografia não é uma ideologia, é um trabalho, assim como jornalismo é um trabalho. O Cláudio Abramo que tem a grande frase: “É um trabalho de carpinteiro, tem que fazer as coisas direito, nada além disso”.

Fotosite: Você é um dos poucos fotógrafos que chegou a cargos dentro de uma redação que são tipicamente de jornalistas. Como isso aconteceu?

Foi indo naturalmente, mas com muita dor. Porque eu trabalhava com um cara muito chato, que era o Mino Carta, um chato de galocha.

Eu era tudo lá, editor de fotografia, fotógrafo, laboratorista. E o editar fotografia era sentar e paginar as matérias. Aí eu tinha as fotos, mas não sabia de que matéria que era, não tinha lido os textos. Tomava um esporro atrás do outro e fui ficando massacrado, até que tomei uma decisão estratégica, tática, inteligente, no meio daquela guerra, que foi conseguir uma cópia das matérias que chegavam via telex.
(…) Então eu lia as matérias e na hora de paginar eu sabia do que se tratava, dava para saber o que você estava fazendo. A partir daí eu comecei a ler a revista toda, lia tudo. Comecei a traduzir o The Economist e fechava. Outra coisa que me honra muito é que eu fechava também a coluna do Cláudio Abramo. E aí foi indo. Foi um pouco essa coisa de você como fotógrafo não ficar circunscrito pela estrutura do jornalismo, que te deixa ali a reboque. E pelo fato de você não conhecer só a sua engrenagem, você começa a entender o motor, e a interferir no motor.

Fotosite: Você acredita no Brasil?

Eu acredito, sim muito, mas tem que lutar, tem que defender as coisas. E são pequenas coisas, ou seja, desde as bobagens de você ser mais educado no trânsito, ser mais solidário com a pessoa que está do seu lado.

Fotosite: Fotografar ou escrever?

As duas coisas. Se bem que eu gosto um pouco mais de fotografar. Escrever é como música, tem a coisa do ritmo, fazer e refazer até chegar a algo que você acha legal.

Fotografar é algo mais social. Você tem que conhecer pessoas, lugares, se colocar de maneira eficiente, para não estragar eventos e cenas. Aí também tem aquele aspecto lúdico, de enquadrar aquele momento, esperar as coisas acontecerem, se antecipar, olhar por aquele visor…

Uma Nova Versão

21 de setembro de 2007

Foi publicada esta semana a nova redação do código de ética do jornalista, três anos após iniciada a discussão. Os cinqüenta itens, dezenove artigos e quatro parágrafos distribuídos por cinco capítulos foram compilados no congresso extraordinário realizado em agosto, depois de consultas a um monte de gente. Este longo documento reflete a participação do conglomerado: entre artigos com títulos de manuais (É Dever do Jornalista – O Jornalista Não Pode – O Jornalista Deve – O Jornalista Não Deve), alguns itens tratam de boas maneiras (“O jornalista deve manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho”) ou de direitos civis (“É dever do jornalista defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”).

Digamos que é sempre bom lembrar bons valores em uma sociedade que convive com maus exemplos diariamente, mas existem condutas universais, que não são exclusivas de jornalistas. Ficou um pouco redundante, mas o documento é uma referência importante.

Diferente da versão anterior, há uma clara referência à fotografia e ao vídeo, no artigo 12: “O jornalista deve rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade (sic), sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações”. Ainda é amplo. Há alguns meses a Associação Americana de Fotógrafos Profissionais (NPPA) também incluiu a manipulação de imagens em um novo código de ética, por conta das novas tecnologias. É outra referência para profissionais.

Entretanto, para os que não quiserem adotar nenhum dos dois, as punições não têm a menor importância (aqui, eles seriam excluídos do sindicato), até porque para esses, não há manual que os guie.